domingo, 8 de dezembro de 2024

A MARGINALIDADE DO NATAL

 A MARGINALIDADE DO NATAL


"Depois que Jesus nasceu em Belém da Judéia, nos dias do rei Herodes, magos vindos do Oriente chegaram a Jerusalém e perguntaram: ‘Onde está o recém-nascido rei dos judeus? Vimos a sua estrela no Oriente e viemos adorá-lo’. Quando o rei Herodes ouviu isso, ficou perturbado, e com ele toda a Jerusalém. Tendo reunido todos os chefes dos sacerdotes do povo e os mestres da lei, perguntou-lhes onde deveria nascer o Cristo. E eles responderam: "Em Belém da Judéia; pois assim escreveu o profeta..."


- Mateus 2:1-5


    É notória nos Evangelhos a aproximação de Jesus com os marginalizados, excluídos e segregados. Suspeito que isso não é apenas fruto da sua misericórdia grandiosa, ou da sua graça insistente, ou ainda, do seu profundo amor, o que já seria tudo isso, por si só, maravilhoso. Porém, não é exagero associar essa identificação de Jesus com os excluídos ao fato de que era ele também um marginal. Todos sabem da solidariedade que há entre os que sofrem. 

    A mensagem do Natal de Jesus é, sem sombras de dúvidas, uma mensagem marginal para os marginalizados. Somente nessa breve cena que compõe a saga do advento, contém algumas informações que atestam essa marginalidade.

    A primeira é que o evento mais extraordinário de toda a história de Israel é percebido não pelos escribas, fariseus ou mestres da Lei, mas por magos-astrólogos vindos do oriente. A eles fora revelado, bem antes de qualquer um dos profetas e sacerdotes que viviam naquele período em Israel, o nascimento do Cristo. O relato daqueles esotéricos era que uma misteriosa estrela os guiou por dias, ao longo de desertos, proclamando o nascimento do Messias aguardado.

    Aqui, já de cara, há um inconveniente fato sobre o nascimento de Jesus. O Rei do Judeus, filho de Deus, o messias aguardado por toda a elite religiosa e estudiosos da Lei de Israel, faz o seu anúncio através de uma estrela, fora do templo e dos livros, para gentios. Isso, provavelmente, para nos ensinar que a mensagem do Natal, além de ser marginal, é, também, supra religiosa. Jesus de Nazaré não está sob o domínio dos religiosos, nem das suas leis e tão pouco das suas “cidades santas”.

    Não foi em Jerusalém e nem em Samaria. Não foi dentro do sacrossanto templo de Israel, e também não foi num dos aposentos do majestoso palácio de Jerusalém. Jesus nasce em Belém da Judeia, nos fundos de uma simples casa de um dos aldeões que, provavelmente, nem sabia o que estava acontecendo, além da agonia do parto de uma jovem pobre. A profecia de Miqueias não era conhecida de todo o povo. Somente os eruditos de Israel, que viviam na capital, bem próximos do rei, sabiam que o messias nasceria na pequenina e irrelevante Belém. 


E mesmo diante do alvoroço que essa notícia trouxe, deixando o Rei e toda a Jerusalém perturbados, os eruditos não foram à Belém, não se dispuseram a visitá-los, assisti-lo e nem em adorá-lo. Provavelmente, assim como na parábola do “Bom Samaritano”, passaram de largo e seguiram para as suas atividades importantes no importante templo. Ao invés deles, pastores, magos, anjos e bichos deram as boas vindas ao Rei do Universo. 

    Dessa vez, o que podemos perceber é a acessibilidade do Santo Rei que acabara de nascer. Enquanto no palácio da cidade santa, para ter acesso à presença do rei Herodes, ou no templo, para levar as suas orações, havia, para o povo, um sem fim de protocolos e critérios, está ali Jesus, o Rei dos Reis, sem guardas, sem “protocolos de segurança”, sem rituais de purificações e nem muros de separação, recebendo presente de estranhos, sendo acolhido por gente simples e diante dos animais da roça. Simples, disponível, poderoso e marginal.

    Não podemos deixar de perceber que a mensagem poderosa de Jesus está para além dos seus sermões, ensinos e exortações, pois é evidente que o próprio Jesus é a mais poderosa mensagem do Evangelho de Deus. A Boa Nova veio quebrar a lógica da religião, do domínio e dos poderosos. Deus fez de Jesus, desde antes do seu nascimento, um profeta transgressor, que estava condenado a ser um marginal da religião de Israel, dos seus sacerdotes e dos governantes. Mas o povo pôde receber o Rei dos Judeus, o Santo de Israel, que se fez carne, se fez povo e marginal para, junto aos marginalizados, anunciar a salvação de Deus.

    Precisamos prestar atenção nessa mensagem. Não foi à toa e sem propósito tudo isso. Deus queria nos ensinar que bem aventurados são os pobres, os que choram e os perseguidos porque, ainda que nos reinos e nas religiões dos homens não tenham espaços para eles, no Reino Anunciado por Jesus, a lógica é invertida: Os últimos serão os primeiros, os menores serão os maiores e os marginalizados, excluídos segregados são bem vindos e estarão com Jesus no centro, numa mesa farta de pão, amor, perdão e graça.


- Pr Lázaro Sodré

domingo, 1 de dezembro de 2024

A GRANDE LUZ

 

A GRANDE LUZ


“Esse tempo de escuridão e desespero, no entanto, não durará para sempre. A terra de Zebulom e de Naftali será humilhada, mas no futuro a Galileia dos gentios, localizada junto à estrada entre o Jordão e o mar, se encherá de glória. O povo que anda na escuridão verá grande luz. Para os que vivem na terra de trevas profundas, uma luz brilhará.

Tu multiplicarás a nação de Israel, e seu povo se alegrará. Eles se alegrarão diante de ti como os camponeses se alegram na colheita, como os guerreiros ao repartir os despojos. Pois tu quebrarás o jugo de escravidão que os oprimia e levantarás o fardo que lhes pesava sobre os ombros. Quebrarás a vara do opressor, como fizeste ao destruir o exército de Midiã. As botas dos guerreiros e os uniformes manchados de sangue das batalhas serão queimados; servirão de lenha para o fogo.

Pois um menino nos nasceu, um filho nos foi dado. O governo estará sobre seus ombros, e ele será chamado de Maravilhoso Conselheiro, Deus Poderoso, Pai Eterno e Príncipe da Paz. Seu governo e sua paz jamais terão fim. Reinará com imparcialidade e justiça no trono de Davi, para todo o sempre. O zelo do Senhor dos Exércitos fará que isso aconteça!”

— Isaías 9.1-7

INTRODUÇÃO:

Sem dúvidas, o Natal é a festa da luz. Não é à toa que há luzes por todos os lados. Essa simbologia é precisa, pois a luz faz sempre oposição às trevas. Na Bíblia, trevas fazem referência, pelo menos, a três coisas: ao mal, à ignorância e ao vazio. Onde há essas coisas, há trevas. O mundo ao nosso redor é assim. A escalada da maldade no mundo é a maior prova do fracasso da humanidade. Há maldade por todos os lados: violência, corrupção, guerra, mazelas sociais. Poderíamos passar horas listando o mal que existe. É triste como nos acostumamos a conviver com isso.

Além disso, a sociedade vive um enorme paradoxo: ao mesmo tempo em que convive com a quantidade de informações e conhecimentos jamais vista, vivemos com mazelas que confrontam todo esse conhecimento. Temos visto que o acúmulo de conhecimento e informações não é sinônimo de sabedoria e inteligência. Nos deparamos constantemente com comportamentos rudimentares dos seres humanos, próprios de bestas feras e, como nunca, as pessoas têm vivido com dramas agudos em suas almas. Como dizem, vivemos uma epidemia de doenças emocionais e vícios, que especialistas identificam como consequências de almas vazias e vidas sem propósito.

As ideologias políticas, os modelos econômicos, os extraordinários feitos das tecnologias e até as mais sofisticadas elaborações filosóficas, nada disso tem se mostrado capaz de dissipar as densas trevas que estão sobre o mundo. A pretensão humana de auto-salvação é um fiasco, o mundo jaz em trevas.

A PROMESSA DA LUZ:

O relato que antecede esse capítulo 9 de Isaías retrata um drama da sociedade da época, que não difere muito da sociedade contemporânea: “Andam sem rumo, cansados e famintos. E, por causa da fome, amaldiçoam seu rei e seu Deus. Olharão para o céu, depois olharão para a terra, mas para onde voltarem os olhos só haverá problemas, angústia e sombrio desespero. Serão lançados nas trevas. (8.21).

Contudo, há uma promessa de esperança: “Esse tempo de escuridão e desespero, no entanto, não durará para sempre... O povo que anda na escuridão verá grande luz. Para os que vivem na terra de trevas profundas, uma luz brilhará.” (9.1-2)

A promessa de Isaías é como uma estrela que surge no céu mais escuro. Essa luz não é uma ideia abstrata; é uma pessoa, o próprio Cristo, que vem para dissipar as trevas e trazer um novo começo.

A pretensão humana de auto-salvação, por mais bem-intencionada que seja, é como tentar consertar uma lâmpada quebrada sem eletricidade: por mais bela que seja a lâmpada, ela não iluminará sem uma fonte de energia externa. O mesmo acontece conosco: sem a luz de Cristo, nossos esforços são insuficientes. Entendemos que ideologias políticas que prezam pelos menos favorecidos fazem contribuições importantes; assim como modelos econômicos mais justos, que não exploram nem usurpam os direitos dos trabalhadores, tudo isso é muito importante e não podemos abrir mão. Porém, nada disso, por si só, é suficiente.

O que Isaías diz é que o povo viu uma grande luz porque: “Tu multiplicarás a nação de Israel, e seu povo se alegrará. Eles se alegrarão diante de ti como os camponeses se alegram na colheita, como os guerreiros ao repartir os despojos. Pois tu quebrarás o jugo de escravidão que os oprimia e levantarás o fardo que lhes pesava sobre os ombros. Quebrarás a vara do opressor, como fizeste ao destruir o exército de Midiã. As botas dos guerreiros e os uniformes manchados de sangue das batalhas serão queimados; servirão de lenha para o fogo.” (9.3-5)

E como essa maravilhosa luz brilhará em e entre nós? Isaías explica: “Pois um menino nos nasceu, um filho nos foi dado.” É justamente por causa do nascimento do “menino Deus” que será possível. A luz que ilumina a todos os homens nasceu do ventre de uma mulher, numa simples manjedoura, na humilde Belém da Judeia. E Ele brilhará porque Ele é Maravilhoso Conselheiro, Deus Poderoso, Pai Eterno e Príncipe da Paz.

Maravilhoso Conselheiro - Ele é a grande referência que nos ajudará a discernir o certo do errado, o bem do mal. Vivemos uma crise de referências no mundo, nos faltam modelos inspiradores de ética. Jesus de Nazaré foi o modelo de ser humano que Deus deseja que todos nós sejamos. Muito mais do que um chamado religioso, o Cristo nos convida à humanização. Sobre o Cristo, o papa São Leão Magno afirmou: “Um Jesus tão humano assim, só podia ser Deus”. O Cristo encarnado é o nosso Maravilhoso Conselheiro.

Deus Poderoso – Tim Keller diz que, diante do Deus poderoso, não temos a opção de gostar dele. Não temos como ficar indiferentes diante de Jesus. Ou rejeitamos, ou ficamos com raiva, ou nos prostramos em adoração. Quem realmente compreende quem é Jesus se enche de espanto, como os discípulos no barco: “...quem é este, que até o vento e o mar lhe obedecem?” (Mc 4.41). Quando fazemos isso, nos colocamos submissos à sua soberania, vontade e direção. Abrimos mão dos nossos “quereres” para dizer: “Seja feita a sua vontade”.

Pai Eterno – Contudo, mesmo sendo o grandioso Deus, Ele é também o Pai Eterno. Em Jesus, encontramos o colo amoroso, restaurador e cuidadoso de Deus. A graça do amor do Deus Poderoso se dá acessível, disponível e gratuita em Cristo. Essa é a mensagem do Evangelho: “Deus estava em Cristo reconciliando consigo o mundo, não lhes imputando os seus pecados; e pôs em nós a palavra da reconciliação.” (2 Co. 5.19).

Príncipe da Paz – E, por fim, Jesus de Nazaré é o Príncipe da Paz. A paz aqui ocupa, pelo menos, três sentidos. Primeiro, Ele pacifica os nossos corações aflitos, ansiosos e angustiados. A todos nós Ele diz: “Vinde a mim e encontrarão descanso para as suas almas.” Além disso, Ele estabelece a paz entre nós e o nosso próximo. O Cristo nos ensina o caminho do amor, da generosidade e do perdão. Ele cura o nosso coração da vingança, do rancor e da bestialidade. Ele nos ensina a pagar o mal com o bem. Mas Ele também nos faz estar em paz com Deus. O apóstolo Paulo diz: “Sendo justificados, pois, pela fé, temos paz com Deus.” (Romanos 5:1)

A luz profetizada por Isaías brilhou em Belém e continua a brilhar hoje, transformando vidas. Cristo não é apenas uma lembrança histórica; Ele deseja iluminar nosso coração neste Natal. Que possamos, ao celebrarmos o nascimento de Jesus, permitir que Ele seja nossa luz em um mundo em trevas. Como Ele disse: "Eu sou a luz do mundo." (João 8:12)

domingo, 9 de fevereiro de 2020

O ESCÂNDALO DA GRAÇA


“Se algum de vocês estiver sem pecado, seja o primeiro a atirar pedra nela".
 
(João 8.7)

A graça de Deus sempre foi motivo de escândalo. Os homens sempre tiveram dificuldades de entender como um Deus tão poderoso pode, ao mesmo tempo, ser tão misericordioso e compassivo. Essa foi, por exemplo, a crise de Jonas. O profeta além de não entender isso, como não aceitava que essa graça poderia alcançar um povo tão indigno, pecador e pior, tão diferente dos padrões que ele achava correto. Jonas ficou revoltado com a misericórdia de Deus exercida sobre os ninivitas, e por isso disse: “Ah! Senhor! Não foi esta minha palavra, estando ainda na minha terra? Por isso é que me preveni, fugindo para Társis, pois sabia que és Deus compassivo e misericordioso, longânimo e grande em benignidade, e que te arrependes do mal. Peço-te, pois, ó Senhor, tira-me a vida, porque melhor me é morrer do que viver.” (Jn 4:2,3).
Esse incômodo perdurou até os tempos de Jesus. Primeiro com os próprios discípulos do Mestre, que demonstraram insatisfação quando Jesus, não apenas não mandou fogo para consumir os incrédulos samaritanos, como os repreendeu por pensar que Deus poderia agir de tal forma (Lc 9.54-55). Mesmo seguindo a Jesus, os discípulos, talvez sem perceber, reproduziram uma compreensão comum que as pessoas tinham sobre Deus. Contudo foram os fariseus que mais tiveram dificuldades de entender como o Deus Eterno poderia ser tão pródigo em sua graça e bondade. A religiosidade sempre é o principal obstáculo para aceitar a graça do Senhor. Tudo que foge aos padrões, que extrapola os limites e que alcança os diferentes, desmonta a estrutura rígida da religião, e confunde aqueles que se sentem imbuídos de zelar pelo seu bom funcionamento. 
Porém ainda hoje a graça de Deus é “pedra no sapato” dos legalistas e fundamentalistas religiosos. Para esses, é inconcebível que a Graça não esteja acompanhada da ira de um Deus furioso, interessado em exercer justiça sobre os irreconciliáveis pecadores. A frase “Deus é amor, mas também é justiça” esconde a imensa dificuldade de compreender tanto a graça, como a forma como Deus exerce a sua justiça. Mas de onde vem essa dificuldade?
Além do legalismo e fundamentalismo que limitam a compreensão da Graça de Deus, existem outros elementos que também dificultam tal compreensão e aqui destaco dois:
- A falta de exame próprio: O apóstolo Paulo nos instruiu: “examine, pois, cada um a si mesmo...” (1 Co 11.28), e Jesus nos alertou do risco de nos incomodar com o “cisco no olho do irmão”, mas não tratarmos da “trave em nosso próprio olho”. (Mt 7.3-5). A religiosidade inverte essa lógica. Ao invés de auto examinarmos, nos tornamos implacáveis patrulheiro da fé, conduta e erros alheio. Mas cito aqui uma das brilhantes frases, atribuídas ao C.S Lewis: "Se o maior pecador que você conhece não é você, você precisa se conhecer." É isso, quanto menos nos conhecemos, mais dificuldade teremos para compreender e, consequentemente, de aceitar a Graça do Senhor.
- A falsa sensação de segurança da religião: As práticas religiosas têm um poder ludibriante. Nos causa a falsa sensação de auto justificação. Se faço, se dou, se cumpro, se sou diligente, sou merecedor, sou digno. Esse é o princípio da meritocracia, que é transferido para a relação com Deus. Mas no Evangelho de Jesus a lógica é diametralmente oposta. Não somos, e nem conseguiremos ser justos, fomos justificados. Paulo diz o seguinte: “Porque pela graça sois salvos, por meio da fé; e isto não vem de vós, é dom de Deus. Não vem das obras, para que ninguém se glorie...” (Ef. 2.8-9).
A cena posta nesse capítulo é exatamente essa. Jesus está ensinando no templo e os fariseus, exercendo o que é comum aos legalistas, trazendo a julgamento uma mulher acusada de adultério. Nesse episódio, 4 ações denunciam o legalismo do fundamentalismo religioso:
1. Patrulha e Vigia o comportamento alheio.
2. Expõe, humilha e oprime aos outros.
3. Justifica a perversidade e maldade com a desculpa de zelo pela Lei de Deus.
4. São incapazes de ver os seus próprios erros.
Mas encontram se com Jesus. Há um sutil comentário que o Evangelista coloca no texto: “Eles estavam usando essa pergunta como armadilha, a fim de terem uma base para acusá-lo...” (v. 6). Ou seja, eles não queriam atingir apenas a mulher, mas ao Senhor também. A presença e as palavras libertadoras de Jesus são extremamente constrangedoras e incômodas para qualquer um que não consegue compreender como o amor e as misericórdias de Deus se manifestam.
Mas a forma como Jesus reage a tudo isso nos ensina lições profundas do poder da Graça de Deus que alcançam, até mesmo, os intolerantes e raivosos, que se escondem por detrás da religião para perpetuar sistemas de opressão, violência e ódio. Olhando para Jesus aprendemos que, em Jesus de Nazaré, Deus nos oferece perdão e Graça.
1. Porque o Senhor não expõe, não humilha e tão pouco oprime – Jesus poderia expor a todos os que estavam ali. Poderia humilha-los, apontando para as suas fraquezas, dificuldades e incoerências, mas o Mestre preferiu reafirmar o seu convite: "Venham a mim, todos os que estão cansados e sobrecarregados, e eu lhes darei descanso. Tomem sobre vocês o meu jugo e aprendam de mim, pois sou manso e humilde de coração, e vocês encontrarão descanso para as suas almas. Pois o meu jugo é suave e o meu fardo é leve" (Mt. 11.28-30). Não compreenderemos a Graça de Deus se não abrirmos mão do “jugo” da religião para aceitarmos o “jugo” de Deus. 

2. O Senhor convida para a difícil, mas necessária tarefa do autoexame: “Quem não tiver pecado, atire pedra nela...” Simples palavras, mas de profundo impacto! Se cada um de nós assumirmos o compromisso de corrigir as nossas próprias falhas, além de não sobrar tempo para vigiar o próximo, compreenderíamos melhor a misericórdia de Deus.

3. O Mestre de Nazaré nos mostra a face do Senhor que não condena, mas acolhe: Há uma história interessante da vida do Rei Davi. Depois de cometer um grave pecado e ser confrontado com as possíveis consequências, a escolha do rei nos ensina sobre o nosso Deus: “... Prefiro cair nas mãos do Senhor, pois é grande a sua misericórdia, e não nas mãos dos homens". (I Cr. 21.13). Jesus manifesta essa Graça de Deus de modo abundante. Em Jesus, qualquer pecador tem a possibilidade de receber acolhimento e segundas chances.

4. Jesus convida para “A Nova Vida”: Essa é a proposta do Evangelho, novidade de Vida. O que todos os pecadores precisam é de novas oportunidades para reescreverem as suas histórias. Outro detalhe importante na forma como Jesus trata a mulher, e que antes de dizer: “...vá e não peques mais...”  o Senhor declarou: “Nem eu te condeno...”. As palavras libertadoras e manifestam a Graça de Deus, que não oculta os erros, mas redime os pecadores, os liberta da opressão do pecado e dá novas condições para experimentarem vida.  

Jesus de Nazaré é o Cristo que nos oferece perdão. Essa é a “Boa Nova” do Evangelho. Em Jesus todos os pecadores alcançam perdão. Em Jesus, toda a opressão do pecado e da religião caem por terra, para dá lugar a vida abundante que Deus nos oferece, graciosamente. 

terça-feira, 31 de dezembro de 2019

CONSELHOS PARA OS QUE DESEJAM UM ANO NOVO (corrigido e ampliado)



"Espere no Senhor. Seja forte! Coragem! Espere no Senhor."
(Salmos 27:14)

Não há como ter um ano novo fazendo as mesmas coisas.
Por mais óbvio que pareça ser, nada muda, se nada muda. Sei que todos desejam um ano novo, e mais, um feliz ano novo! Não apenas novas datas de um calendário, mas, uma nova agenda, novas oportunidades, novas experiências. Porém, sei também que a maioria das pessoas que conheço não terão como mudar muitas coisas em suas vidas.

Continuarão nos mesmos empregos,  morando na mesma casa, cercadas das mesmas pessoas, tendo a mesma rotina. Continuarão com as mesmas preocupações, mesmo corre-corre e, até mesmo, os mesmos estresses.

Para essas pessoas cabe a expressão do autor do Eclesiastes "Não há nada de novo debaixo do sol" (Ecl. 1.9). Talvez, para essas pessoas, desejar ou sonhar com um ano novo pode parecer apenas um jargão sem sentido, ou uma doce ilusão de românticos ingênuos.

Porém, nesse versículo 14 do Salmo 27, o salmista nos convida a pensar, ter esperança e colocar o Senhor no “centro” das nossas vidas.

"Espere no Senhor. Seja forte! Tenha Coragem! ‘E descanse, esperando’ no Senhor."

Comece o ano sabendo disso: Existem muitas coisas que não temos a menor capacidade ou a competência de muda-las. Tem coisas que não sabemos o que fazer para muda-las e nem cabe a nós fazer isso. Pessoas, situações, condições, organizações...

Sobre essas coisas, espere no Senhor. Não adianta se desgastar imprimindo forças ou gastando energia naquilo que você não pode nada fazer. Talvez o desafio seja, até mesmo, aprender a viver com elas, ouvindo do Senhor: “A minha Graça te Basta!”. (2 Co. 12.9)

Sobre isso: Ore, entregue nas mãos do Eterno e descanse.

Mas seja forte também!

Alguém já disse que a vida não dá mole para quem é fraco. O mundo não vai parar para você se recompor, para você enxugar as suas lágrimas, para você entender os caminhos e descaminhos do viver. “Parta pra cima!” Se esforce, permaneça firme. Acorde mais cedo, durma mais tarde, ore bastante.

Numa frase atribuída ao pastor Martim Luther King, somo encorajados: "Se não puder voar, corra. Se não puder correr, ande. Se não puder andar, rasteje, mas continue em frente de qualquer jeito”.

Não tenha medo de pedir ajuda quando necessário. Estude mais, trabalhe mais, ame mais, sorria mais, compartilhe vida, estabeleça laços verdadeiros de amizade e comunhão. Não fique reclamando, ninguém vai ouvir as suas reclamações (não por muito tempo), vou lhe contar um segredo: ninguém gosta de ficar ouvido reclamações e murmurações em todo o tempo.

Mas também lembre-se de duas coisas importantes:  Você não precisa ser forte o tempo todo e nem passar pelas lutas sozinho. Às vezes, o maior sinal de força é se reconhecer fraco, e pedir ajuda aos amigos e irmãos.

Tenha coragem!

É tolice esperar um ano novo fazendo as mesmas coisas. Tenha coragem para resolver aquele problema que tira a sua paz, para encarar seus medos, para tratar traumas, para sair de um relacionamento abusivo e tóxico. Coragem para começar aquela especialização, para se lançar em novos projetos, para aprender algo novo e fazer novas amizades. Tenha coragem para se dedicar mais ao Senhor da sua vida, lembre-se dos seus dons, talentos, do seu chamado. Pare de dar desculpas, isso é chato e não agrada a Deus.

Tenha coragem para casar, coragem para melhorar seu desempenho, para conhecer novas pessoas, para recomeçar a sua vida, se for o caso. Seja corajosa ou corajoso e comece a cuidar do seu corpo, da sua saúde emocional, da sua alma! Faça exercícios, mude hábitos alimentares que te fazem mal, leia bons livros, comece uma terapia, ouça boas músicas, cultive disciplinas espirituais. Não esqueça, Deus sempre nos dá novas oportunidades. Sempre haverá lugares novos para lançarmos as nossas redes.

Um ano novo só pode ser vivido por quem tem coragem, muita Coragem!

E por fim, depois de ter feito tudo o que cabe a você, consagre ao Senhor o trabalho das suas mãos e espere no Nele. Talvez você vai passar o ano novo com as mesmas pessoas, fazendo as mesmas coisas, vivendo nos mesmos ambientes. Você pode até fazer novamente tudo o que você fez e viveu no ano que passou, mas pode fazer isso de uma forma bem melhor. Com mais vida, mais amor, mais paixão. Com excelência, alegria e leveza.

Viver é um misto dessas coisas. E esse é um caminho para quem, de fato, deseja fazer e viver um Ano Novo.


Pr Lázaro Sodré
- texto publicado originalmente em 2018

sexta-feira, 27 de dezembro de 2019

O CÂNTICO DE MARIA

O CÂNTICO DE MARIA

Um louvor sobre política, economia, opressão e a misericórdia de Deus em pleno Natal

Disse então Maria:

A minha alma engrandece ao Senhor, e o meu espírito se alegra em Deus, meu Salvador;
Porque atentou na baixeza de sua serva; Pois eis que, desde agora, todas as gerações me chamarão bem-aventurada, porque me fez grandes coisas o Poderoso; e santo é seu nome.

E a sua misericórdia é de geração em geração sobre os que o temem.
Com o seu braço agiu valorosamente; dissipou os soberbos no pensamento de seus corações. Depôs dos tronos os poderosos e elevou os humildes.

Encheu de bens os famintos e despediu vazios os ricos. Auxiliou a Israel, seu servo, recordando-se da sua misericórdia; como falou a nossos pais, para com Abraão e a sua posteridade, para sempre.

E Maria ficou com ela quase três meses, e depois voltou para sua casa.”

(Lucas 1:46-56)

O nascimento de Jesus é muito mais do que um evento religioso.

As implicações do Natal do Cristo de Nazaré atingem, em cheio, questões religiosas, sociais, éticas, políticas e econômicas. Os evangelhos registram que Jesus nasceu em Belém da Judeia, no tempo em que Herodes era o rei de Israel.

Dois sumo-sacerdotes exerciam o poder no templo de Jerusalém: Caifás e seu sogro, Anás. Jesus era filho de Maria, uma jovem prometida a um carpinteiro chamado José, da linhagem de Davi. Apesar de estarem em Belém da Judeia, eles moravam numa vila pobre de camponeses, na província da Galileia, chamada Nazaré.

Não podemos desconsiderar essas informações sobre Jesus e o contexto do seu nascimento. Todas essas questões são tão importantes que, quando o apóstolo Paulo falou do cumprimento da promessa na vinda do Messias, ele se refere a um “tempo oportuno” ou “plenitude dos tempos” (Gl 4:4; 2 Co 6:2, citando Is 49:8). Deus levou em consideração o domínio romano, toda a turbulência interna e externa a Israel, os anos de opressão e exploração enfrentados pela Galileia, o preconceito étnico e social sofrido por Samaria e toda a corrupção político-religiosa da Judeia.

Maria estava muito atenta a tudo isso e, de forma profunda e extremamente precisa, ousadamente apontou, em seu cântico, como o Senhor resiste e reprova toda opressão, violência e corrupção dos homens, e como, num ato de misericórdia, socorre os que acreditam e confiam n’Ele.

Vemos isso em cinco partes:

“Então disse Maria: 'Minha alma engrandece ao Senhor e o meu espírito se alegra em Deus, meu Salvador.'” (vs. 46,47)

Apesar de Maria falar na primeira pessoa — “...meu Salvador” —, sua fala ecoa a voz de todas as mulheres de Israel. Este é o único discurso longo de uma mulher no Novo Testamento e um dos maiores em toda a Escritura. Maria apresenta Deus como o Salvador de todos os oprimidos e, em especial aqui, de todas as mulheres.

Esse cântico encontra precedentes em outros cânticos do Antigo Testamento, que exaltam a atuação misericordiosa, graciosa e poderosa de Deus na libertação do seu povo (Miriã em Êx 15; Débora em Jz 5; Ana em 1 Sm 2).

O cântico de Maria nos desafia a não aceitar pacificamente nenhuma estrutura de opressão. Historicamente, as mulheres têm sofrido diversas formas de violência em nossa sociedade: violência doméstica e obstétrica; assédios nos ambientes de trabalho e nas ruas; discriminação e preterição em suas profissões e carreiras acadêmicas. Esses são apenas alguns exemplos das inúmeras situações em que as mulheres são expostas, apenas pelo fato de serem mulheres. Mas o que Maria afirma em seu cântico é que Deus não aprova nenhuma forma de abuso ou opressão, nem mesmo aquelas disfarçadas de piedade e zelo religioso.

“Pois atentou para a humildade da sua serva. De agora em diante, todas as gerações me chamarão bem-aventurada, pois o Poderoso fez grandes coisas em meu favor; santo é o seu nome.” (vs. 48,49)

A palavra “baixeza” ou “humildade” (gr. tapéinosis) é usada muitas vezes no Antigo Testamento grego (a Septuaginta) para fazer referência à humilhação social e política que Israel sofria sob a dominação de potências estrangeiras (Dt 26:7; 1 Sm 9:16).

Encontramos algumas semelhanças na atuação de Maria com ícones importantes do Antigo Testamento, como Abraão e Moisés. Assim como Abraão, que, pela fé, deu início à peregrinação do povo de Deus no Antigo Testamento, e por isso foi chamado de “Pai da Fé”, Maria deu início à caminhada do povo no Novo Testamento com um chamado de fé. É isso que Isabel diz: “Bem-aventurada a que creu, pois hão de cumprir-se as coisas que da parte do Senhor lhe foram ditas.” (Lc 1:45).

Já o título de “grande libertador” do Antigo Testamento está com Moisés. Embora seja lógico que estamos falando aqui de uma libertação político-econômico-social, que não se compara à atuação de Jesus, é importante lembrar que Moisés foi apenas um instrumento do poder divino. O grande Libertador é o próprio Deus. Nesse sentido, Maria se assemelha a Moisés ao se colocar como serva obediente, dizendo: “Eis aqui a serva do Senhor; cumpra-se em mim segundo a tua palavra.” (Lc 1:38).

Portanto, assim como há espaço na tradição judaico-cristã para Abraão e Moisés, deve haver, de igual modo, para Maria como uma serva importante na história da redenção, tanto pela sua fé quanto pela sua obediência.

“A sua misericórdia estende-se aos que o temem, de geração em geração. Ele realizou poderosos feitos com seu braço; dispersou os que são soberbos no mais íntimo do coração.” (vs. 50,51)

Essa expressão — “...com seu braço agiu valorosamente” — é usada no Antigo Testamento para indicar o agir de Deus em favor do seu povo, especialmente no Êxodo. Mais uma vez, Maria se aproxima de Moisés, sendo usada como instrumento precioso nesse processo de libertação do povo de Deus.

“Depôs dos tronos os poderosos, e elevou os humildes. Encheu de bens os famintos, e despediu vazios os ricos.” (vs. 52,53)

Na tradição do judaísmo popular do tempo de Jesus, havia uma oração em que um judeu agradecia a Deus todos os dias por não ter nascido mulher, cachorro ou samaritano. A partir daqui, tal comparação se torna impensável.

O Deus poderoso age em favor dos humilhados e oprimidos, contra as forças socio-religiosas e político-econômicas que se opõem ao seu projeto, subvertendo a estrutura da sociedade que perpetua tais distinções. O Evangelho do Reino é a Boa Nova de salvação que desfaz qualquer mecanismo opressor — seja étnico, social ou de gênero. Em Jesus, Deus cria uma nova humanidade:

“Todos vocês são filhos de Deus mediante a fé em Cristo Jesus, pois os que em Cristo foram batizados, de Cristo se revestiram. Não há judeu nem grego, escravo nem livre, homem nem mulher; pois todos são um em Cristo Jesus. E, se vocês são de Cristo, são descendência de Abraão e herdeiros segundo a promessa.” (Gl 3:26-29)

“Auxiliou a Israel, seu servo, recordando-se da sua misericórdia; como falou a nossos pais, para com Abraão e a sua posteridade, para sempre.” (vs. 54,55)

O Magnificat, ou o cântico de Maria, é esse grande cântico libertador que marca o início do Reino de Deus. É um documento revolucionário e intenso, proclamado por uma mulher que anuncia as virtudes e os valores de misericórdia, paz, justiça, compaixão e igualdade da espécie humana.

Aqui está um cântico de louvor ao Deus misericordioso e libertador das mulheres e dos oprimidos, cujos direitos foram e são violados diariamente. Esse cântico de Maria apresenta a dinâmica do Reino de Deus inaugurado em Jesus de Nazaré: uma economia transformada (os poderosos são depostos e os humilhados elevados), a violência superada e o alimento provido aos famintos.

A espiritualidade do Natal de Jesus está na santidade, na misericórdia e na solidariedade para com os que sofrem. Nos corações em que Jesus nasce, Ele faz brotar essas coisas.

Pr Lázaro Sodré
@IB Alvorada - Aracaju, SE.


terça-feira, 24 de dezembro de 2019

FELIZ NATAL



“Pois, na cidade de Davi, vos nasceu hoje o Salvador, que é Cristo, o Senhor.”

(Lucas 2:11)

Anjos se ocuparam de anunciar o nascimento de Jesus a alguns pastores no campo. Foi em Belém, uma das aldeias de Judá, sul de Israel. O local não foi o mais adequado, o período também não. Seus pais estavam em plena viagem para o recenseamento exigido pelo imperador. De improviso, numa manjedoura, único local disponível. Nenhuma hospedaria disponibilizaria um leito para uma mulher grávida, nos dias de ter a criança. Pela Lei de Moisés, o local do parto ficaria impuro por uma semana, e como a cidade estava cheia, seria um enorme prejuízo ao dono.

Mesmo naquele local, guardado pelos seus pais, observado pelos animais, envolto em panos, recebeu a visita de magos, guiados pela estrela, vindos do Oriente. Não se sabe quantos, o que sabemos é que eles o presenteou com ouro, incenso e mirra. Ali estava uma criança. Para alguns, outra como muitas. Mas para os que conheciam a promessa, era o prometido, o Cristo de Deus, o Salvador do mundo.

É por conhecer a promessa que nós, discípulos de Jesus, nos alegramos tanto com o Natal. Olhamos para aquela manjedoura e percebemos ali, de carne e osso, no seio da sua mãe, o favor do Deus Eterno. Jesus, o filho de Deus, é a materialização do amor. A Trindade Santa encarna para fazer cumprir o projeto de levar toda a raça humana de volta ao Pai, nos livrando da morte, do pecado, da desumanização.

Por isso não é exagero nenhum celebrarmos o Natal com tanta ênfase. Luzes, árvores, canções, trocas de presentes, família reunida, ceia. Tudo isso são sinais que apontam para o menino Deus, filho de Maria e José. Os cristãos ao longo dos séculos fazem questão de celebrar tudo isso.

Porém, para não perder o sentido, para não deixar que a festa de aniversário seja mais importante do que o aniversariante, é interessante, pelo menos por um momento, voltarmos à simplicidade do evento inicial. Mesmo sendo Deus e podendo nascer da mulher mais poderosa do mundo, escolheu a humilde Maria. Mesmo podendo proporcionar a maior recepção que o mundo já viu, digna dos reis, foi numa desconfortável viagem, numa simples aldeia, nos fundos da casa de um aldeão. Mesmo podendo ser anunciado em todas as nações do mundo, para ser recebido pelas figuras mais ilustres não só de Israel, mas de Roma e do Egito, as nações mais importantes da época, Ele foi recebido por simples pastores, magos e camponeses.

O Senhor dos céus e da terra fez isso, provavelmente, para nos ensinar que Ele não precisa do trono dos reinos, honrarias formais ou ostentações materiais. O Mestre não veio construir e nem tomar posse de Impérios humanos, Ele veio reinar em corações. Por isso, a forma mais adequada de se celebrar o Natal é fazendo dos nossos corações uma manjedoura.

Se o Cristo não nascer em cada um de nós, perde-se completamente o sentido da festa. Jesus nasceu para nos dá vida, a vida de Deus. Ele é a porta de acesso a comunhão. Comunhão com Deus, nos livrando da religiosidade e paganismo. Comunhão com o nosso próximo, nos livrando do egoísmo e individualismo. Se junto com as luzes, árvores, trocas de presentes, ceias e canções, Jesus não nascer em nós, tudo isso não passará de uma festa, simples festa do consumismo, da glutonaria, da ostentação e da hipocrisia. Os discípulos de Jesus não esquecem da festa e muito menos do festejado, do aniversariante, do Salvador, que é Cristo, o Senhor.

Um Feliz Natal.


Pr Lazado

quinta-feira, 19 de dezembro de 2019

A GRAÇA NOS VISITOU NO NATAL



 “E, naqueles dias, levantando-se Maria, foi apressada às montanhas, a uma cidade de Judá, E entrou em casa de Zacarias, e saudou a Isabel. E aconteceu que, ao ouvir Isabel a saudação de Maria, a criancinha saltou no seu ventre; e Isabel foi cheia do Espírito Santo. E exclamou com grande voz, e disse:

Bendita és tu entre as mulheres, e bendito o fruto do teu ventre. E de onde me provém isto a mim, que venha visitar-me a mãe do meu Senhor? Pois eis que, ao chegar aos meus ouvidos a voz da tua saudação, a criancinha saltou de alegria no meu ventre. Bem-aventurada a que creu, pois hão de cumprir-se as coisas que da parte do Senhor lhe foram ditas.”

(Lucas 1:39-45‬‬)‬‬

O evento mais extraordinário da história, sem dúvidas, foi o nascimento de Jesus de Nazaré. A promessa do Cristo, aguardado por Israel, foi cumprida em Belém da Judeia, numa manjedoura, a partir do ventre de uma jovem chamada Maria. 

O mais surpreendente é que ali, não apenas o Messias prometido veio ao mundo, mas numa revelação recebida por Pedro aprendemos o grande mistério sobre a identidade de Jesus: “Tu és o Cristo, o Filho do Deus vivo.”, disse Pedro. (Mt. 16.16). 


Jesus de Nazaré não é apenas o Messias, o Ungido, o Cristo e sim, o Filho do Deus vivo. Esse é o grande mistério do Natal. O fruto do ventre de Maria é o Senhor soberano de toda a terra, uma das pessoas da Trindade Santa que encarna como homem, a partir do ventre de uma mulher.

Por isso, em meio ao mistério e a beleza da encarnação, expressões de louvor a Deus são registradas nos eventos da Anunciação. Lucas registra quatro cânticos com expressões de louvor e adoração ao Eterno, diante do cumprimento da maravilhosa promessa do Natal.

O primeiro é esse transcrito acima, o cântico da beatitude de Izabel, seguido do Magnificat de Maria (1.47), depois o cântico de Zacarias, o benedictus (1.68) e por fim um coral de Anjos cantam o In excelsis Deo (2.14). As canções sempre estiveram presentes nos cultos de louvor a Deus.

Diante dos grandes feitos do Senhor, homens e mulheres ao longo dos séculos quebrantam seus corações diante da graça abundante do Senhor.  Os cristãos também passaram a celebrar o nascimento do Senhor cantando a glória de Deus.

Analisando essa cena da visita de Maria a Izabel, podemos perceber a ação graciosa de Deus em detalhes importantes. Primeiro, o inicio do cumprimento de uma profecia. Note que ao ouvir a voz de Maria, tanto Izabel quanto a criança em seu ventre percebem a presença de Deus, e são tomados pelo Espírito Santo. 

Aqui somos remetidos a duas passagens do Antigo Testamento: A primeira, ao oráculo do profeta Joel que, falando dos dias do Messias, nos disse que Deus derramaria do Seu Espírito sobre toda a carne (Jl. 2.28) e também a expressão do Rei Davi diante da Arca da Aliança: “Como virá a mim a arca do Senhor?”  (2 Sm. 6.9). 

Perceba quanta semelhança entre a expressão de Davi e a de Izabel. Ela, tomada pelo Espírito Santo diz: "E de onde me provém isto a mim, que venha visitar-me a mãe do meu Senhor?" A presença de Jesus, mesmo no ventre de Maria, manifesta a graça do Deus Emanuel.

Mas além disso, três outras expressões do Cântico de Izabel nos ensinam como a graça de Deus se tornou acessível no Natal:

Bendita és tu entre as mulheres, e bendito o fruto do teu ventre.

Maria se tornou a bendita mãe do filho de Deus, por se submeter à Sua vontade. O Senhor, pela Sua Graça, fez de Maria uma mulher bendita, ou, como ela mesma disse, uma bem-aventurada. Não por ela, não por seus méritos, mas porque ela confiou nos cuidados dAquele que detêm todo o poder. 

Quando recebeu o anúncio do Anjo, mesmo sem entender, com medo e assustada, Maria deu a única resposta possível para os que confiam no Senhor: “Eis aqui a serva do Senhor; cumpra-se em mim segundo a tua palavra.” (Lc. 1.38). Os benditos são, sempre, os que continuam crendo.

“E de onde me provém isto a mim, que venha visitar-me a mãe do meu Senhor?”

Jesus é o Senhor! Essa compreensão foi obtida pelos discípulos depois da ressurreição de Jesus. O título de Senhor foi dado a Jesus depois de ter vencido a morte. Entretanto, Izabel compreendeu isso mesmo antes de Jesus nascer.

Reconhecer que Ele é o Senhor, é compreender que Ele detém todas as coisas, inclusive as nossas vidas. Depois de ressurreto, em suas últimas palavras aos seus discípulos, Jesus afirma: “Toda autoridade me foi dada nos céus e na terra”. (Mt. 28.18).

Jesus é a manifestação do poder Gracioso de Deus que, mesmo sendo o Senhor de todo o universo, que mantém e sustenta todas as coisas, Ele se importa com cada um de nós e nos visita. 

"Pois eis que, ao chegar aos meus ouvidos a voz da tua saudação, a criancinha saltou de alegria no meu ventre."

Os corações que recebem a Jesus se enchem de alegria. A alegria passa a ser uma companheira dos que creem. Os que têm essa alegria não são ingênuos para imaginar que não passarão por dificuldades ou não serão desafiados com as lutas da vida, mas confiam na presença daquele que é maior do que qualquer circunstância que a vida possa apresentar.

 É isso que significa ser “Bem-Aventurado”. Os Bem-Aventurados podem até chorar, mas serão consolados. 

   Muito mais do que uma festa, muito além do que um calendário litúrgico, muito mais profundo do que cerimonias, trocas de presentes e decorações, o Natal é a visitação do Deus cheio de Graça que se faz presente em Jesus de Nazaré. Perceber a presença de Jesus é ter acesso a maravilhosa Graça do Deus Eterno e bondoso, salvador de todos os que creem.


Pr Lázaro Sodré

Pastor da Igreja Batista Alvorada, em Aracaju-Se.

 (Essa pastoral faz parte dos textos
 compartilhados dominicalmente 
na comunidade, por meio do 
boletim impresso).