segunda-feira, 14 de outubro de 2019

JESUS, O CRISTO QUE SUPRE AS NOSSAS NECESSIDADES
(Série: Eu Sou Jesus, o Cristo)

“Jesus respondeu, e disse-lhe: Qualquer que beber desta água tornará a ter sede; Mas aquele que beber da água que eu lhe der nunca terá sede, porque a água que eu lhe der se fará nele uma fonte de água que salte para a vida eterna".

 (João 4.13-14)

              Foi Jacques Lacan, um psicanalista francês, quem disse que somos seres desejantes destinados a incompletude e é isso que nos faz caminhar”. Caminhamos porque sentimos necessidades, temos faltas, somos incompletos. Mas não somente isso, caminhamos porque somos seres de desejos. Por desejar, nos movimentamos. Nos movemos na direção do que precisamos, daquilo que nos desperta desejos. Para explicar isso melhor, o psicólogo americano Abraham Maslow desenvolveu a “pirâmide das necessidades”, ou, como ficou mais conhecida, “pirâmide de Maslow”.

            Ali as necessidades humanas foram organizadas em 5 níveis, de acordo com as suas prioridades. Maslow dizia que no primeiro estágio, na base da pirâmide, estão as necessidades fisiológicas, como comer, beber, dormir. Já no segundo estão as necessidades de segurança, que são: segurança da violência, liberdade, ausência de ambientes poluídos e de conflitos. Depois, no terceiro estágio, estão as necessidades sociais: Nossos relacionamentos com família, amigos, com a nossa comunidade. Em seguida, agora no quarto estágio são as necessidades de estima: Aprovação das pessoas que gostamos, reconhecimento da comunidade que frequentamos, senso de pertencimento. E por fim, no quinto estágio está a auto realização. Aqui estão as mais sofisticadas, como: Educação, lazer, crescimento pessoal e transcendência. 

        Maslow apresenta essa pirâmide para nos mostrar que, em se tratando de necessidades, como se organizam as nossas prioridades, e como funcionam nossas motivações. Somos esses seres em eterna busca. A mediada que vamos avançando, os nossos desejos vão nos impulsionando a desejar mais, dai, Maslow conclui: Somos insaciáveis.

COMENTANDO O TEXTO:

Nesse encontro de Jesus com essa mulher, podemos perceber que estamos diante de um ser em busca. O autor, mais uma vez, como é característico deste Evangelho, não economiza em detalhes. Começa com a motivação da viagem de Jesus. O Mestre sai da Judeia, no sul de Israel, e parte em direção a Galileia. Entre uma província e outra, está Samaria. Para facilitar a viagem, diferente do que os Fariseus faziam, Jesus passa propositadamente pela Samaria. Por causa de divergências étnicas, Judeus e Samaritanos se evitavam. Jesus para num poço, e isso se dá por volta do meio dia, um horário pouco provável para alguém carregar água. Mas, mesmo assim uma mulher vem, e vem sozinha. Jesus inicia uma conversa com essa mulher. Homens não falavam com mulher em locais públicos, muito menos um Rabi.

Só esses detalhes são suficientes para mostrar a disposição de Jesus. O Senhor transpõe todas as barreiras postas pela sociedade, e vai em direção à mulher, como vem em nossa direção, nós que somos seres de necessidades, de buscas, de desejos. O que o Mestre busca mesmo é saciar um coração sedento. Podemos utilizar a proposta da Pirâmide de Maslow para perceber, nas declarações desta mulher, necessidades que também temos.  1 - Tenho sede (v.7) (fisiológicas), 2 - Sou Samaritana (v. 9) (Segurança), 3 - Não tenho marido (v. 17) (Sociais), 4 – Tenho dúvidas sobre a minha tradição (v. 20) (Auto Estima) e 5 – Quero transcendência (v. 25) (Auto Realização).

          Não podemos negligenciar as nossas necessidades. Assim como precisamos de pão, de segurança, das pessoas, também precisamos de uma experiência de que nos leve além dessa realidade. A vida é muito mais do que a busca desenfreada em saciar as “nossas sedes”, seja lá quais forem. O Mestre ensina que quem vive apenas para satisfazer todos os seus desejos, por mais legítimos que sejam, se torna escravo da ansiedade.
“Por isso, vos digo: não andeis ansiosos pela vossa vida, quanto ao que haveis de comer ou beber; nem pelo vosso corpo, quanto ao que haveis de vestir. Não é a vida mais do que o alimento, e o corpo, mais do que as vestes? "... (e conclui) buscai, pois, em primeiro lugar, o seu reino e a sua justiça, e todas estas coisas vos serão acrescentadas. Portanto, não vos inquieteis com o dia de amanhã, pois o amanhã trará os seus cuidados; basta ao dia o seu próprio mal." (Mt. 6.33-34).

Numa frase atribuída ao grande escritor russo, Fiodor Dostoiévski, está dito:

“Existe no homem um vazio do tamanho de Deus.”

       É exatamente isso! Nada que conseguimos possuir é capaz de saciar a fome que temos de transcendência. O que está por detrás de todas as nossas buscas é essa “sede” que temos de Deus, por isso que sofremos constantemente a tentação de transformar as nossas necessidades em ídolos e as nossas buscas em culto. Na pirâmide de Maslow, a busca de Deus está no topo da pirâmide, somente depois de saciar todas as nossas buscas, é que partimos em busca do sagrado. Mas Jesus nos ensina que devemos colocar Deus como fonte primaria de saciedade de todas as nossas buscas. Perceba nas respostas de Jesus lições preciosas:

- "Quem beber desta água terá sede outra vez, mas quem beber da água que eu lhe der nunca mais terá sede. Pelo contrário, a água que eu lhe der se tornará nele uma fonte de água a jorrar para a vida eterna" (vs.13- 14).

A gente não quer só comida... é isso que Jesus está pontuando. Comer, beber é importante, mas precisamos de mais. É Deus quem sacia os nossos desejos. Não permita que nada ocupe o lugar de Deus em sua vida, por mais necessário que essa lhe seja. A gula nasce quando fazemos da experiência de comer e beber idolátrica, o alimento passa a ser um ídolo.

- E depois, o  Mestre diz a ela: "Creia em mim, mulher: está próxima a hora em que vocês não adorarão o Pai nem neste monte, nem em Jerusalém. Vocês, samaritanos, adoram o que não conhecem; nós adoramos o que conhecemos, pois, a salvação vem dos judeus. No entanto, está chegando a hora, e de fato já chegou, em que os verdadeiros adoradores adorarão o Pai em espírito e em verdade. São estes os adoradores que o Pai procura. Deus é espírito, e é necessário que os seus adoradores o adorem em espírito e em verdade". (vs. 21-24).

Aqui o mestre novamente toca em nossas tradições. Encontrar-se com Jesus é ser convidado a sair da zona de conforto. Todos nós temos a necessidade de pertencimento. Pertencemos as nossas famílias, ao nosso grupo étnico, as nossas tradições religiosas. Jesus nos convida a colocar tudo isso em segundo plano. Deus produz em nossos corações a segurança que nenhuma das nossas tradições são capazes de nos dá.

- E no final, revela: “Eu sou o Messias! Eu, que estou falando com você".” (V. 26).

Jesus termina nos mostrando o quanto Ele está perto. Mais perto do que a água que mata a nossa sede, mais próximo do que a família que nos dá segurança. Mais disponíveis do que os nossos círculos de relacionamentos, mas real do que qualquer uma das nossas tradições, Ele nos leva a mais real e pura experiência de transcendência. Ele é o Cristo do Deus que sacia a nossa sede, que preenche o nosso coração incompleto, Ele é Jesus, o Cristo que supre as nossas necessidades.                                                               
                                                                                                                        



Lázaro Sodré
(Pastor da Igreja Batista Alvorada, Aju - SE) 


Esse texto faz parte de uma série de pastorais dominicais, baseadas no 
Evangelho de João, intituladas "Eu sou Jesus, o Cristo" - Texto n° 7 

segunda-feira, 23 de setembro de 2019


“POR QUE ESTÁS TÃO TRISTE, Ó MINH’ALMA?”
UM LAMENTO (SALMO 42.43)
(Uma Pastoral sobre o setembro Amarelo)

“Existem dias que parecem noites”.

Em alguns momentos das nossas vidas, somos surpreendidos com tristezas que vêm e ficam. As noites parecem mais longas, os dias mais cinzentos, a alegria parece um insulto. Não há motivos suficientes que justifiquem viver. É justamente nesses momentos que se instala a depressão. A depressão não é simplesmente uma tristeza. Talvez por causa do culto contemporâneo à felicidade, em que o tempo todo e a todo custo todos devem estar felizes, muitos confundem um momento de tristeza com essa terrível doença.

Ficar triste faz parte da vida, assim como ficar alegre. Na vida existem momentos de alegrias e de tristeza, de choro, de chateações. Mas esses momentos pontuais, isolados, ou com uma causa bem definida, como a perda de um ente querido, o término de um relacionamento, uma frustração acadêmica ou profissional, não podem ser confundidos com depressão. Essas coisas podem ser um “gatilho” que desencadeia a depressão, mas não necessariamente.

A Org. Mundial da Saúde (OMS) afirma que a partir de 2020, dentre todas as doenças, a depressão será a maior causa de absenteísmo no mundo. Pessoas fora dos seus ambientes naturais de trabalho, família, estudo e lazer por causa da depressão. A depressão, assim como qualquer doença grave, precisa de diagnóstico especializado e tratamento correto. Não é qualquer pessoa que tem autoridade e condições para dizer que alguém está ou não mais está em depressão. E o tratamento demanda tempo, paciência e responsabilidade.

Três coisas que a depressão não é:  
1. Não é drama. 
2. Não é para chamar atenção. 
3. Não é falta de Deus.

Três coisas que uma pessoa com depressão precisa:  
1. Diagnóstico Especializado. 
2. Apoio e Acolhimento. 
3. Tratamento Adequado.

Há quem diga que esse lamento descrito nos Salmos 42 e 43 seja de um levita da casa de Coré. Provavelmente exilado, no norte de Israel, impossibilitado de fazer as peregrinações comuns aos Judeus, ao menos, três vezes ao ano. Não temos como saber as razões pelas quais ele se encontra nessa situação, mas podemos perceber alguns sinais de depressão nesse homem de Deus. Esse lamento pode ser dividido em três partes.

I PARTE: 42.1-5:
- 42.1-2 -  “Como a corça anseia por águas correntes, a minha alma anseia por ti, ó Deus. A minha alma tem sede de Deus, do Deus vivo. Quando poderei entrar para apresentar-me a Deus?” -  Sentimentos de desesperança e luto.

- 42.3 – “Minhas lágrimas têm sido o meu alimento de dia e de noite, pois me perguntam o tempo todo: "Onde está o seu Deus? "  - Sinais de alteração no sono, desamparo.
- 42.4 – “ Quando me lembro destas coisas choro angustiado. Pois eu costumava ir com a multidão, conduzindo a procissão à casa de Deus, com cantos de alegria e de ação de graças entre a multidão que festejava.” - Tristeza profunda e um “vazio” persistente, sentimentos de inutilidade.                                                                                                

II – PARTE: 42.6-11:
- 42.7 – “Abismo chama abismo ao rugir das tuas cachoeiras; todas as tuas ondas e vagalhões se abateram sobre mim.” ¬- Falta de energia, apatia e cansaço.
- 42.9 – “Direi a Deus, minha Rocha: "Por que te esqueceste de mim? Por que devo sair vagueando e pranteando, oprimido pelo inimigo? " - Sentir-se inquieto, dificuldade de concentração.
- 42.10 – “Até os meus ossos sofrem agonia mortal quando os meus adversários zombam de mim, perguntando-me o tempo todo: "Onde está o seu Deus? " - Mal estar e dores físicas sem causa aparente.

III – PARTE: 43.1-5:
43.1.2 – “Faze-me justiça, ó Deus, e defende a minha causa contra um povo infiel; livra-me dos homens traidores e perversos. Pois tu, ó Deus, és a minha fortaleza. Por que me rejeitaste? Por que devo sair vagueando e pranteando, oprimido pelo inimigo?” – Desamparo, solidão e vulnerabilidade.

Assim como Elias (I Rs 19), Jonas (Jn 4) ou mesmo Paulo (2 Co.1.8-9), todos nós somos vulneráveis à depressão. A nossa fé e dependência de Deus, sem dúvidas, pode nos ajudar a enfrentar os males causados por ela. Passar por uma situação como essa, de modo algum, tem a ver com “falta de Deus”, como dito acima. O que o Apostolo Paulo e o Profeta Elias passaram, por exemplo, foi, justamente, pela sua fé e testemunho de que eram homens de Deus.

MAS, COMO AS ESCRITURAS NOS AJUDAM A ENFRENTAR UMA DEPRESSÃO? 

1. DEUS NOS ENSINA QUE PRECISAMOS DE PESSOAS – Deus nos fez seres sociáveis. Não fomos feitos para vivermos sozinhos, isolados. No relato da criação, no livro do Gênesis, a primeira vez que expressão “não é bom” aparece é quando Deus percebe Adão sozinho. (Gn. 2.18). Familiares, amigos, colegas e, no caso de uma pessoa doente, como alguém com depressão, profissionais que o ajude a tratar a doença. Deus nos abençoou com pessoas que nos auxiliam e correspondem.

2. DEUS DÁ SENTIDO À NOSSA VIDA - É evidente que vivemos em um mundo adoecedor. Opressões, cobranças, perversidades, os sinais do pecado no mundo são variados e abundantes, e viver num mundo assim faz mal, muito mal. Ao mesmo tempo, somos empurrados para o consumismo desenfreado, pressionados a construir uma carreira profissional relevante, enquanto vivemos aprovados com a violência dos grandes centros urbanos. Nos falta tempo de qualidade para aprofundar relacionamentos e desfrutar de momentos de prazer. Contudo, Jesus nos ensina algo primoroso em Mateus 6:25-34:

"Portanto eu lhes digo: não se preocupem com suas próprias vidas, quanto ao que comer ou beber; nem com seus próprios corpos, quanto ao que vestir. Não é a vida mais importante do que a comida, e o corpo mais importante do que a roupa? (...) Busquem, pois, em primeiro lugar o Reino de Deus e a sua justiça, e todas essas coisas lhes serão acrescentadas. Portanto, não se preocupem com o amanhã, pois o amanhã se preocupará consigo mesmo. Basta a cada dia o seu próprio mal".

O Evangelho de Jesus é um convite a um estilo de vida que previne a depressão. Viver com Jesus é compreender duas coisas fundamentais: A primeira é que Deus nos fez para a comunhão, como Ele mesmo e com o nosso próximo. Isso nos garante que as lutas e aflições da vida não serão enfrentadas em solidão. Ele virá em nosso auxilio e também nos enviará pessoas para cuidarem de nós. A segunda é também compreender que não precisamos sacrificar o nosso tempo acumulando “tesouros aqui na terra”, que não somos um diploma numa parede, que uma prova não atesta a nossa capacidade, que um status social não avalia a nossa importância. A vida de um seguidor do Jesus de Nazaré é valiosa porque ele entende que é obra e alvo do poderoso amor do Deus Senhor da vida, da alegria e do viver. E quem assim vive, sempre terá esperança, como lembrou o salmista: “Ponha a sua esperança em Deus! Pois ainda o louvarei; ele é o meu Salvador e o meu Deus.” (42.5.11- 43.5).                                                 


Lázaro Sodré
(Pastor da Igreja Batista Alvorada, Aju - SE) 


Esse texto faz parte das pastorais dominicais, na ocasião do setembro amarelo, 2019

sexta-feira, 13 de setembro de 2019

UNIDADE NA DIVERSIDADE

"Partos, medos e elamitas; habitantes da Mesopotâmia, Judéia e Capadócia, Ponto e da província da Ásia, Frígia e Panfília, Egito e das partes da Líbia próximas a Cirene; visitantes vindos de Roma, tanto judeus como convertidos ao judaísmo; cretenses e árabes. 
Nós os ouvimos declarar as maravilhas de Deus em nossa própria língua! " 
(Atos 2:9-11) 
 
Unidade na diversidade.  
Essa frase define bem a Igreja de Jesus. Uma comunidade de pessoas marcadas pelas diferenças, mas que, intencionalmente, resolvem caminhar juntas. Jesus não nos chamou para sermos iguais, Ele respeita as nossas particularidades, nossas diferenças, nossas escolhas. 
Não precisamos ser iguais para sermos "um". 
A unidade da Igreja não é evidenciada pela sincronia dos movimentos, preferências e aparências dos seus membros, e sim, pela direção que caminham. Em uma das exortações que Deus fez a Israel por meio do profeta Amós, Ele questiona: “Duas pessoas andarão juntas se não estiverem de acordo? ” (3:3‬).  

Por sermos seguidores de Jesus, nos dispomos a superar as nossas diferenças para andarmos juntos. A direção e a forma de caminhar são estabelecidas pelo Mestre e nós obedecemos, Ele é a referênciaDeixamos de olhar para nós mesmos e olhamos para o Cristo. Enquanto os nossos olhos não saírem de nós mesmos, seremos incapazes de experimentarmos a unidade proposta por Jesus.  

Alguém já disse que os cristãos "abandonaram o reino do Eu para abraçarem o Reino de Deus", pois, no Reino de Deus, nada é conjugado na primeira pessoa do singular, mas sempre na primeira do plural. E na caminhada do dia a dia, inevitavelmente, as nossas diferenças serão um grande obstáculo a ser superado. O caminho não é esconde-las ou mudá-las, mas aprender a viver com todas as nossas características, pois são nelas que se escondem a nossa identidade. Quem somos é o conjunto de pequenos detalhes que compõe esse "mosaico" da nossa existência, exatamente igual à Igreja de Jesus.

O derramamento do Espírito Santo na festa do Pentecostes (At. 2) foi o início de uma nova era na humanidade. Desde a tentativa da construção da Torre de Babel (Gn 11), as diferenças entre as pessoas seria o maior impedimento à comunhão. O próximo passou a ser o estranho, o inimigo o opositor. Há um detalhe muito importante nessa narrativa de Gênesis 11. Como é sabido, os onze primeiros capítulos do livro do Gênesis não são narrativas históricas literais, mas contos que se propõe explicar, do ponto de vista teológico, a origem de todas as coisas. Não é à toa que muitos chamam o primeiro livro da Bíblia de “O livro dos Inícios”.  

O texto diz que quando Deus resolve desarticular o projeto dos homens de construir a torre, Ele disse: “Venham, desçamos e confundamos a língua que falam, para que não entendam mais uns aos outros" (v.7). Aqui há o ponto chave. Quando perdemos a capacidade de dialogar, quando deixamos de ouvir e ser ouvidos, as diferenças que deveriam ser a mais bela as características de um povo, passa a ser o principal fator de rupturas. Na escuta há empatia, há ponto de contato, há comunhão. No Reino de Deus, ouvimos a voz de Jesus e as vozes dos irmãos.  

O maior poder que os seguidores de Jesus receberam em Pentecostes foi a capacidade de ser um só povo. Ali, os preconceitos, as discriminações, os julgamentos caíram por terra. 

Se manifestou o poder da unidade, da aceitação, do acolhimento. 

Ninguém é mais estranho, todos somos irmãos queridos e benditos e Deus, que é um só Deus e Pai de todos, é sobre todos, por meio de todos e em todos. (Ef. 4.6). 


Lázaro Sodré 
(Pastor da Igreja Batista Alvorada, Aju - SE) 

Esse texto faz parte das pastorais dominicais.

quarta-feira, 4 de setembro de 2019

SÓ VIVE QUEM PERDOA (UMA HISTÓRIA SOBRE PERDÃO)

“José, porém, lhes disse:

 "Não tenham medo. Estaria eu no lugar de Deus?

Vocês planejaram o mal contra mim, mas Deus o tornou em bem, para que hoje fosse preservada a vida de muitos. Por isso, não tenham medo. Eu sustentarei vocês e seus filhos".

E assim os tranquilizou e lhes falou amavelmente. ”

(Gênesis 50:19-21)

As narrativas sobre José do Egito são impressionantes. Todos lembram do sonhador, décimo primeiro filho de Jacó com a sua amada Raquel. Que foi vendido como escravo pelos seus irmãos, sofreu acusação injusta na casa do general do exército egípcio, foi esquecido na prisão por um companheiro e de como Deus agiu em seu favor.

Quando lemos essa história, somos impactados com a serenidade, firmeza e fé de José. No texto citado acima, está a impressionante lição que José dá aos seus irmãos e a todos nós. Esse é o fim que sonhamos ter em todos os nossos problemas de relacionamentos.

Mas a pergunta que cabe aqui é: O que aconteceu na vida de José que permitiu tamanha ternura e compaixão?

José perdoou.

John Mayra Donne foi um poeta e pregador inglês que, sobre os afetos, nos alertou:

"Que nossos afetos não nos matem nem morram".

Os mesmos afetos que geram vida em nós podem morrer, e pior, podem nos matar. As decepções e desilusões da vida têm o poder de converter corações amáveis em terrenos inférteis e pedregosos.  Porém, o perdão é o ambiente onde a cura dos afetos feridos acontecem. Perdoar é dá ao outro a condição de se redimir, se arrepender e, sobretudo, nos dá também a condição de não nos tornar uma pessoa amargurada, fria e insensível.

É o perdão que nos ajuda a não confundir justiça com vingança.

Existem alguns detalhes na história de José que podem nos ensinar sobre essa preciosa e importante experiência de perdoar.

- PRIMEIRO, PERDOAR DEMANDA TEMPO

Temos a tendência de romantizar as histórias e personagens bíblicos. Olhamos para eles e, na maioria das vezes, não conseguimos perceber a dor, angustia e, principalmente, o tempo que cada situação, crise e luta demandam.

As narrativas sobre a vida de José começam no capítulo 37 do Gênesis e vai até o final do livro. A história tem início quando ele tinha dezessete anos (37.2), quando foi reconhecido e honrado pelo faraó, José tinha trinta (41.46) e quando se revelou ao seu irmão tinha, mais ou menos, trinta e dois (baseado na informação em 45.11).
Sendo assim,desde a traição sofrida até o reencontro com os irmãos se passaram quinze anos.

Em quinze anos, José teve a oportunidade de pensar, orar, administrar e tratar suas emoções. E isso nos ensina que o perdão demanda tempo. Talvez não quinze anos, até mesmo porque acredito que José não demorou esse tempo todo para perdoa-los. Mas a verdade é que não devemos minimizar as dores causadas por uma traição, ofensa ou agressão. Entre o desejo de perdoar e a cura das feridas há um tempo que precisa ser respeitado. É importante que tenha um dia para terminar, é verdade. Mas precisa ser considerado o tempo necessário para que o genuíno perdão aconteça.

- SEGUNDO, PERDOAR LIVRA DA AMARGURA

Um coração amargurado não perdoa. E mais ainda, um coração que carrega o peso do mal que alguém lhe fez se torna, aos poucos, mal também. A definição de amargura é: “Sofrimento forte de dor, tristeza e desencanto”.

A maldade tem, ao menos, duas faces. Tem a maldade do ato em si, quando uma pessoa faz o mal contra a nós. Porém, existe também a maldade que causamos a nós mesmos, quando permitimos que as experiências ruins afetem a forma como nos relacionamos com os outros, com nós mesmos e como reagimos ou deixamos de reagir aos estímulos da vida.

Na carta aos Hebreus, o autor escreve:

“Esforcem-se para viver em paz com todos e para serem santos; sem santidade ninguém verá o Senhor. Cuidem que ninguém se exclua da graça de Deus. Que nenhuma raiz de amargura brote e cause perturbação, contaminando a muitos. ” (Hebreus 12:14,15).

Das orientações que o autor nos oferece, ele pontua: “Que nenhuma raiz de amargura brote e cause perturbação, contaminando a muitos. ” . Um coração amargurado causa perturbações.

José se livrou da amargura. Não permitiu que o mal que fizeram com ele o tornasse mal também. Três episódios da sua vida mostram isso. O primeiro é a sua fidelidade na casa de Potifar. Ele poderia justificar o erro com a maldade de sofreu. Aliás, temos a tendência de fazer isso. Justificamos a grosseria, o mal humor, a falta de atenção, o descaso, a dificuldade de demostrar e receber afeto, a infidelidade pelos erros dos outros. Porque ele fez, eu fiz também, dizemos. Mas quando fazemos isso, estamos permitindo que a amargura nos torne pessoas más.

O segundo episódio acontece na cadeia. José foi preso injustamente. A injustiça desperta em nós sentimentos de raiva, tristeza e desencanto. Essas coisas tendem a tronar amargo o mais alegre dos corações. Mas, mesmo diante dessa situação José não deixou de fazer o bem. E por fim, diante dos seus irmãos. José, por perdoar, se livrou de ser perverso como foi os seus irmãos.

- TERCEIRO, PERDOAR É CONFIAR EM DEUS

 “Estaria eu no lugar de Deus?” foi essa pergunta que José fez aos seus irmão.

Quando perdoamos deixamos que Deus julgue a situação. Paulo, ensinando como devemos vencer o mal, cita a Lei:

“Amados, nunca procurem vingar-se, mas deixem com Deus a ira, pois está escrito: "Minha é a vingança; eu retribuirei", diz o Senhor.”  E continua: “Pelo contrário: "Se o seu inimigo tiver fome, dê-lhe de comer; se tiver sede, dê-lhe de beber. Fazendo isso, você amontoará brasas vivas sobre a cabeça dele. Não se deixem vencer pelo mal, mas vençam o mal com o bem.” (Romanos 12:19-21).

Perdoar, antes de ser um bem feito ao outro, é um bem feito a nós mesmo. Quando deixamos que Deus cuide, Ele primeiro cuida de nós, não permitindo que o mal nos afete e depois Ele trata com quem nos feriu. A forma correta e eficaz de destruir o poder do mal que alguém nos fez é perdoando. Assim, os nossos afetos são curados e estaremos prontos e oferecer os mais nobres e puros afetos.





Lázaro Sodré 

(Pastor da Igreja Batista Alvorada, Aju - SE) 

Esse texto faz parte das pastorais dominicais, na ocasião do mês da família (Maio de 2019) -


terça-feira, 3 de setembro de 2019

DEUS, SEU AMOR E O SOFRIMENTO

DEUS, SEU AMOR E O SOFRIMENTO
“No mundo tereis aflições...” 

Fomos avisados, a vida não é fácil.
Não é possível passar por ela sem aflições, sofrimentos e lutas, pois viver é também sofrer. Essas coisas podem nos ocorrer de várias formas e em vários momentos das nossas vidas. Enfermidades, crises de relacionamentos, dificuldades financeiras, frustrações, decepções, traições, a lista é sem fim dos males que podem nos atingir.

Porém, na maioria das vezes, a maior aflição que um sofrimento pode causar não está somente naquilo que nos faz sofrer em si, e sim na falta de sentido para o sofrimento. Queremos entender o sofrimento. A pergunta que sempre perturbou a mente de muitas pessoas ao longo dos séculos e sempre vem quando passamos pelas lutas da vida é: “Por que sofremos? ” Qual o sentido do sofrimento? E para nós, que somos cristãos, talvez essa pergunta seja ainda mais inquietante por que está acompanhada da convicção que temos de que Deus é amor. E como entender o amor de Deus em meio aos sofrimentos da vida?

Creio que existem algumas questões que nos ajudam a entender um pouco o sofrimento.

I. Sofremos porque vivemos num mundo distante de Deus.
Nem tudo o que acontece no mundo é da vontade de Deus. Existem muitas coisas que Deus não gostaria que acontecesse, mas, infelizmente, são frutos do livre arbítrio humano. A maior parte do mal que há no mundo é resultado do pecado humano. No Salmo 115, versículo 16 está escrito:
“Os céus são os céus do Senhor, mas a terra, deu-a aos filhos dos homens”.

O Senhor criou o mundo natural, mas a cultura foi criada por nós. Quando o apóstolo Paulo nos adverte, em Romanos capítulo 12, que não devemos nos conformar com esse mundo, ele está falando justamente dessa cultura, desse sistema que gera opressão, morte, violência e maldades sem fim. O mundo é mal porque os homens construíram um mundo mal.

II. Sofremos como consequência das nossas escolhas.
“Não se deixe enganar: de Deus não se zomba. Pois o que o homem semear isso também colherá. ” (Gl. 6.7). O mundo em que vivemos é consequente. O que plantamos, inevitavelmente, colheremos. Mais cedo ou mais tarde, o fruto do nosso trabalho nos dará uma paga. Se plantamos coisas boas, provavelmente colheremos coisas boas, mas o contrário também é verdade. “De que se queixa o homem? Queixa-se cada um dos seus próprios pecados”. Alertou o autor do livro das Lamentações (Lm 3.39).

Há o sofrimento que nós mesmos causamos. As vezes somos nós que criamos o problema de relacionamento, quando somos egoístas, orgulhosos, violentos. As vezes somos nós que criamos a dificuldade financeira, quando somos irresponsáveis, descontrolados, inconsequentes. As enfermidades as vezes vêm por causa da vida descuidada, dos maus hábitos, da negligência. Ou seja, existe sim, um sofrimento causado por nós mesmos. Fazemos escolhas erradas, falamos coisas que não deveríamos, nos comprometemos e fazemos alianças que não agradam a Deus e tudo isso nos traz consequências ruins. Pagamos o preço!

III. Sofremos pela aleatoriedade da vida.
Porém, é importante saber também que algumas vezes não existem causas para o sofrimento. São questões que, simplesmente, não há explicações. O autor de Eclesiastes já havia dito: 
“Percebi outra coisa debaixo do sol: Os velozes nem sempre vencem a corrida; os fortes nem sempre triunfam na guerra; os sábios nem sempre têm comida; os prudentes nem sempre são ricos; os instruídos nem sempre têm prestígio; pois o tempo e o acaso afetam a todos. ”  (Ecl. 9.11).
Existem situações em que não há pecado algum, não teve escolhas erradas, não foi mau hábito ou vício e, de forma bem aleatória, o mal nos alcança. Nesses momentos tentar entender ou justificar a adversidade só faz prolongar a dor e o sofrimento. 

 “Tenho vos dito isto, para que em mim tenhais paz...”

Quando Jesus nos advertiu sobre as aflições da vida, Ele também nos falou sobre a sua paz: “Tenho vos dito isto, para que em mim tenhais paz...”, mas, o que Jesus nos diz para que, mesmo em meio as atribulações da vida, pudéssemos ter paz? Esse trecho da Palavra de Deus vai do versículo 17 até o versículo 33, do capítulo 16 do Evangelho de João. Jesus nos adverte sobre as aflições do mundo no ultimo versículo. Contudo antes ele nos fala da sua missão, daquilo que Ele veio fazer aqui e conquistar, e nos fala também da transitoriedade das nossas vidas.

Aqui somos peregrinos!

Não podemos esquecer que a nossa vida aqui é passageira e breve, muito breve. O amor de Deus não pode ser limitado às circunstancias desse tempo em que passaremos aqui. Aqui venceremos algumas vezes e perderemos outras, aqui teremos momentos de alegria e de tristeza também. Mas, não sãos essas coisas que evidenciam o amor de Deus por nós.

Ele nos ama e a prova mais clara desse amor é a cruz do calvário. Foi ali que Jesus venceu o mundo. Foi ali que a morte, a dor, o sofrimento e o maligno tiveram os seus dias contados. Haverá um tempo em que não haverá morte, nem tristeza, nem choro, nem dor. (Apc. 21.4). Nesse tempo, Deus enxugará dos nossos olhos toda a lágrima. Nesse tempo, o sofrimento será vencido pelo nosso Senhor e por todos os que Nele confiam. 

Enquanto isso vamos construíndo relacionamentos saudáveis, ambientes de acolhimento e compreensão. Precisamos abolir os julgamentos e hábitos tóxicos. Como os dias maus alcançam a todos, se prepara quem semeia bondade, generosidade e fraternidade. Esse é o melhor depósito para enfrentarmos as lutas da vida com graça, amor e a benção do Deus Eterno.


Lázaro Sodré 
(Pastor da Igreja Batista Alvorada, Aju - SE) 
Esse texto faz parte das pastorais dominicais, que saem no boletim informativo da Igreja