sábado, 8 de fevereiro de 2025

O MAIS CONTAGIOSO DOS PECADOS

 O MAIS CONTAGIOSO DOS PECADOS


“Não julgueis, para que não sejais julgados. Porque com o juízo com que julgardes sereis julgados, e com a medida com que tiverdes medido vos hão de medir a vós...”

(Mateus 7:1-2)


    Às vezes, nos comportamos como juízes implacáveis. Apesar da proibição do Mestre, temos bastante facilidade em apontar erros, vícios e problemas nos outros. Parece que nossos olhos têm mais sensibilidade para perceber os desajustes impressos na vida de nossos irmãos e irmãs. Muitos fazem isso porque confundem discernimento com julgamento.

    Discernimento é quando conseguimos perceber as características das pessoas ao nosso redor, suas qualidades, virtudes ou desvios de caráter e, depois disso, definimos se é interessante ou não nos aproximar para desenvolver um relacionamento. Sem dúvidas, precisamos discernir as pessoas. Porém, julgar vai além disso.

    O julgamento acontece quando utilizamos essas informações para dar um veredito, uma palavra final sobre alguém, ou pior, para nos colocar numa posição de superioridade, à semelhança do fariseu na parábola de Lucas 18:11: “Ó Deus, graças te dou porque não sou como os demais homens...”

    Mas o julgamento raramente para em nossos pensamentos. Ele se espalha. O mais contagioso dos pecados é a fofoca, pois transforma julgamentos em comentários depreciativos e venenosos sobre outras pessoas. O pecado não está apenas na boca de quem fala, mas também nos ouvidos de quem ouve e dá espaço a essa prática. A fofoca destrói reputações, semeia discórdia e cria muros onde deveriam existir pontes. Disfarçada de preocupação ou zelo espiritual, torna-se um instrumento de destruição. Como discípulos de Jesus, devemos cultivar palavras que edifiquem, promovam a reconciliação e reflitam a graça que recebemos.

Existem, ao menos, três problemas sérios quando julgamos os outros.


1. O julgamento nega a possibilidade de mudança.

    O primeiro problema é quando achamos que as pessoas não podem mudar ou que a vida de alguém se resume a um ato, uma palavra ou uma ideia. Algo pontual que, muitas vezes, rotula alguém para sempre. Quantas vezes ouvimos expressões do tipo: “Ele é muito grosso”; “Ela é uma mãe irresponsável”; “Aquele outro não tem jeito”?

    Declarações como essas, por mais que pareçam verdades, podem ser fruto apenas de um dia de estresse, um momento de cansaço, uma crise familiar que nosso próximo está enfrentando e da qual nada sabemos. Como não temos condições de considerar todas as coisas que envolvem a vida do outro, nem de limitar o poder de transformação das pessoas, o conselho é: não julgue.


2. O julgamento nasce da padronização do comportamento

    O segundo problema é que o julgamento nasce da padronização do comportamento. Não somos iguais, precisamos lembrar disso. Temos preferências estéticas, comportamentos e expectativas diferentes. Gostamos de coisas distintas e reagimos aos estímulos de forma diversificada. Um pode ser mais introvertido, o outro extrovertido. Um aprecia a tranquilidade de momentos intimistas, enquanto outro gosta de agito e multidão.

    A Igreja é a comunidade dos diferentes que buscam algo em comum. Não podemos padronizar as pessoas e, mais ainda, não podemos nos colocar como o padrão a ser seguido. A autorreferência foi uma das grandes tentações de Adão e Eva. Deus é Senhor sobre todos e, na mesa de Jesus de Nazaré, há espaço para todos.


3. O julgamento cria um ambiente adoecedor

    Por fim, o terceiro problema é que o hábito de julgar os outros cria um ambiente adoecedor. Jesus justifica a proibição ao julgamento, dizendo: “Porque com o juízo com que julgardes sereis julgados, e com a medida com que tiverdes medido vos hão de medir a vós”.

    Um dos piores lugares para se conviver é onde as pessoas vivem apontando os erros umas das outras. Porque é fato: quem julga os outros será julgado por alguém. Aquele que vive cobrando, será cobrado. Os que são implacáveis, sem misericórdia e rudes contribuirão para construir um ambiente tão hostil que, mais cedo ou mais tarde, receberão exatamente a mesma coisa, da mesma forma.

    A Igreja é a comunidade da graça. Nela, todos são bem-vindos, com a liberdade de serem quem são diante de Deus e aceitos por todos. As mudanças que todos precisam passar são fruto do agir do Senhor nas consciências e corações. Na Igreja, Jesus é o padrão a ser seguido e todos os seus membros, cada um com suas dificuldades, se esforçam a cada dia para descansar na graça e nas misericórdias dAquele que nos chamou das trevas para a Sua maravilhosa luz.

    Sendo assim, o julgamento não pode fazer parte da vida dos discípulos e discípulas de Jesus de Nazaré. Quem foi alcançado pela graça do Pai cultiva um coração gracioso, acolhedor e encorajador. Que a Igreja seja, de fato, o lugar onde a graça prevalece sobre o julgamento, e onde cada pessoa pode encontrar em Cristo a transformação que precisa.


Pr. Lázaro Sodré

IB Alvorada - Aju, SE

terça-feira, 31 de dezembro de 2024

POR UM FELIZ ANO NOVO: ESPERANÇA

POR UM FELIZ ANO NOVO: ESPERANÇA

"Abraão, contra toda esperança, em esperança creu..."
– Romanos 4:18

Estamos chegando ao final de mais um ano.
É geralmente nesse período que os votos e desejos de um ano novo feliz e próspero são feitos. As pessoas, por força do hábito ou com reais boas intenções, trocam cortesias e generosidades, na expectativa de que o ano que se inicia seja melhor, mais alegre e menos sofrido.

Contudo, ao olhar para o cenário ao nosso redor, percebemos grandes desafios. Ainda enfrentamos os efeitos de uma crise sanitária não totalmente superada; os sinais das mudanças climáticas são cada vez mais devastadores; a recessão econômica é agressiva e sem previsão de melhora; o desemprego e a violência continuam em alta; o fundamentalismo religioso, as fake news, o negacionismo e as teorias da conspiração ganham mais espaço na formação da opinião pública. Além disso, no próximo ano, o já conturbado cenário político brasileiro enfrentará novas tensões.

Diante desse contexto, não há muitas razões aparentes para esperarmos por um ano novo feliz.

Contudo, somos um povo de fé.

A prática da fé, muitas vezes, parece beirar a ingenuidade ou até a irracionalidade. Por vezes, olhamos para o mundo ao nosso redor como crianças que desconhecem os riscos ou a gravidade da situação. Mas isso acontece porque acreditamos na intervenção sobrenatural de Deus.

Cremos num Deus que se move, interfere, orienta e provê. Embora não tenhamos controle sobre Suas ações ou conhecimento prévio de Seus planos, confiamos no caráter do Senhor. Sabemos que Ele é bom, misericordioso e cheio de amor. Ele é socorro presente nas tribulações, como nos ensina o salmista. Essa certeza não vem apenas das Escrituras Sagradas, mas também de muitas experiências vividas por irmãs e irmãos que testemunharam a fidelidade de Deus.

Por isso, e somente por isso, seguimos para o novo ano cheios de esperança. Ainda que todas as previsões e projeções sejam ruins; ainda que os sinais apontem para dias difíceis; ainda que nossos olhos enxerguem motivos para desânimo, em esperança cremos que o Senhor estará conosco, e isso nos basta.

Se o ano for difícil, o Senhor continuará sendo bom. Se enfrentarmos desafios mais intensos, Ele será o nosso socorro. Mesmo que tudo ao nosso redor desmorone, Ele permanecerá como a rocha firme sob nossos pés.

Essa é a nossa esperança.

Assim, resistimos e caminhamos. Sabe por que esperamos um feliz ano novo? Porque o Senhor, razão da nossa esperança, já está lá e nos aguarda. Ele é a certeza de que, em qualquer cenário, Sua presença nos sustentará.

Feliz ano novo vivido na presença do Senhor.

Pr. Lázaro, Taiane, Laura, Tito e Lis
@IB Alvorada - Aracaju, SE.

Texto de 2021

terça-feira, 24 de dezembro de 2024

FELIZ NATAL



FELIZ NATAL

"Pois, na cidade de Davi, vos nasceu hoje o Salvador, que é Cristo, o Senhor."
(Lucas 2:11)

Anjos se ocuparam de anunciar o nascimento de Jesus a alguns pastores no campo. Foi em Belém, uma das aldeias de Judá, no sul de Israel. O local não foi o mais adequado, o período também não. Seus pais estavam em plena viagem para o recenseamento exigido pelo imperador. De improviso, numa manjedoura — o único local disponível. Nenhuma hospedaria disponibilizaria um leito para uma mulher grávida nos dias de ter a criança. Pela Lei de Moisés, o local do parto ficaria impuro por uma semana, e como a cidade estava cheia, seria um enorme prejuízo ao dono.

Mesmo naquele local, guardado pelos seus pais, observado pelos animais, envolto em panos, Jesus recebeu a visita de magos guiados pela estrela, vindos do Oriente. Não sabemos quantos eram, mas sabemos que o presentearam com ouro, incenso e mirra. Ali estava uma criança. Para alguns, outra como tantas. Mas para os que conheciam a promessa, era o Prometido, o Cristo de Deus, o Salvador do mundo.

É por conhecer a promessa que nós, discípulos de Jesus, nos alegramos tanto com o Natal. Olhamos para aquela manjedoura e percebemos ali, de carne e osso, no seio da sua mãe, o favor do Deus Eterno. Jesus, o Filho de Deus, é a materialização do amor. A Trindade Santa encarna para fazer cumprir o projeto de levar toda a raça humana de volta ao Pai, livrando-nos da morte, do pecado, da desumanização.

Por isso, não é exagero nenhum celebrarmos o Natal com tanta ênfase. Luzes, árvores, canções, trocas de presentes, família reunida, ceia. Tudo isso são sinais que apontam para o Menino Deus, filho de Maria e José. Os cristãos, ao longo dos séculos, fazem questão de celebrar tudo isso.

Porém, para não perder o sentido, para não deixar que a festa de aniversário seja mais importante do que o Aniversariante, é interessante, pelo menos por um momento, voltarmos à simplicidade do evento inicial. Mesmo sendo Deus e podendo nascer da mulher mais poderosa do mundo, escolheu a humilde Maria. Mesmo podendo proporcionar a maior recepção que o mundo já viu, digna dos reis, foi numa desconfortável viagem, numa simples aldeia, nos fundos da casa de um aldeão. Mesmo podendo ser anunciado em todas as nações do mundo, para ser recebido pelas figuras mais ilustres não só de Israel, mas de Roma e do Egito — as nações mais importantes da época —, Ele foi recebido por simples pastores, magos e camponeses.

O Senhor dos céus e da terra fez isso, provavelmente, para nos ensinar que Ele não precisa do trono dos reinos, honrarias formais ou ostentações materiais. O Mestre não veio construir nem tomar posse de impérios humanos; Ele veio reinar em corações. Por isso, a forma mais adequada de se celebrar o Natal é fazendo dos nossos corações uma manjedoura.

Se o Cristo não nascer em cada um de nós, perde-se completamente o sentido da festa. Jesus nasceu para nos dar a vida, a vida de Deus. Ele é a porta de acesso à comunhão: comunhão com Deus, livrando-nos da religiosidade e do paganismo; comunhão com o nosso próximo, livrando-nos do egoísmo e do individualismo. Se, junto com as luzes, árvores, trocas de presentes, ceias e canções, Jesus não nascer em nós, tudo isso não passará de uma celebração vazia, sem o verdadeiro significado.

Os discípulos de Jesus não esquecem da festa e, muito menos, do Festejado — do Aniversariante, do Salvador, que é Cristo, o Senhor. Que neste Natal possamos abrir nossos corações para que Cristo nasça em nós, transformando nossas vidas e nos conduzindo a uma comunhão verdadeira com Deus e com o próximo.

Um Feliz Natal!

Pr. Lázaro, Taiane, Laura, Tito e Lis

sábado, 21 de dezembro de 2024

O PRIMEIRO MILAGRE DO AMOR

 O PRIMEIRO MILAGRE DO AMOR

"Então o Senhor Deus fez cair um sono pesado sobre Adão, e este adormeceu; e tomou uma das suas costelas, e cerrou a carne em seu lugar; e da costela que o Senhor Deus tomou do homem, formou uma mulher, e trouxe-a a Adão. E disse Adão: Esta é agora osso dos meus ossos, e carne da minha carne; esta será chamada mulher, porquanto do homem foi tomada. Portanto deixará o homem o seu pai e a sua mãe, e apegar-se-á à sua mulher, e serão ambos uma carne."

Gênesis 2.21-24

    Há uma beleza singular na poesia da criação. Não são textos literais. A preocupação não é com a literalidade, mas com a teologia e a beleza poética. Bem característico dos textos judaicos, como os livros dos Salmos e Cantares de Salomão. No Gênesis, a maior intenção do autor é deixar claro que “no princípio, Deus”. E quando Deus deixa de estar no princípio, as coisas dão errado, bem erradas, vide o que fizeram Adão e Eva no jardim, ou Caim com seu irmão, ou ainda os homens na grande torre do capítulo 11.

    Contudo, quando o princípio está e vem de Deus, há santidade, vida e ordem. Assim é a união matrimonial. Os mais atentos perceberão que o autor credita a Deus a ideia do casamento. Adão não pediu uma companheira. Estava ele no jardim, com toda fauna e flora ao seu dispor. Mas o poeta registra algo: a primeira vez que Deus percebe algo que não estava bom em sua criação foi, justamente, na humanidade. Para que Adão tivesse a imagem e semelhança do seu Criador, ele não poderia estar só. O Eterno afirmou: “Não é bom que o homem esteja só”. Faltava-lhe algo, ele não estava completo.    

Mas uma questão surge: pode o Senhor fazer algo que não seja bom? Lógico que não. Então, o que significam essas palavras? Na verdade, a humanidade não estava completa ainda. Semelhante a algo que ainda não alcançou a sua plenitude, que ainda não amadureceu o suficiente, que não alcançou a forma final, ainda não estava bom. Foi justamente depois da criação de Eva que a humanidade ficou completa.

    É justamente nessa experiência que a humanidade testemunha o primeiro milagre de Deus: dois se tornam um. O casamento é um milagre. São duas pessoas, dois corpos, duas histórias, muitos sonhos, vontades e quereres que, voluntariamente, se unem e decidem fazer de tudo isso algo comum, por isso um milagre. A poesia bíblica nos ensina que o casamento é o primeiro milagre realizado pelo amor.

    Quando Adão exclama “essa sim, é osso dos meus ossos e carne da minha carne”, ele está relatando uma evidência: ela sou eu. Não há mais dois, mas um só. Daí o grande paradoxo que o grande Camões, certamente inspirado no texto bíblico, sobretudo no capítulo 13 da primeira carta aos Coríntios, escreveu seu soneto 11:

"Amor é fogo que arde sem se ver
É ferida que dói e não se sente;
É um contentamento descontente,
É dor que desatina sem doer.

É um não querer mais que bem querer;
É solitário andar por entre a gente;
É nunca contentar-se de contente;
É um cuidar que se ganha em se perder.

É querer estar preso por vontade;
É servir a quem vence, o vencedor;
É ter com quem nos mata lealdade.

Mas como causar pode seu favor
Nos corações humanos amizade,
Se tão contrário a si é o mesmo Amor?"

    Alguém poderia dizer que tudo isso é contraditório, mas não é, é apenas paradoxal. O amor é exatamente isso, e quero comentar apenas três frases desse belíssimo soneto:

"Amor é fogo que arde sem se ver" – O amor é descrito como uma força intensa, mas invisível. A imagem do fogo simboliza a paixão e o desejo, que consomem sem ser necessariamente percebidos externamente. É uma metáfora para as emoções que queimam no interior.

"É um não querer mais que bem querer" – O amor é um desejo tão profundo que, paradoxalmente, quem ama não quer nada além de amar. É um anseio que se basta em si mesmo. Aliás, Tim Maia cantou: 

"A semana inteira/
Fiquei esperando/
Pra te ver sorrindo/
Pra te ver cantando/
Quando a gente ama/
Não pensa em dinheiro/
Só se quer amar,
se quer amar, se quer amar."

"É querer estar preso por vontade" – O amor é uma prisão que o amante escolhe, porque sente prazer em se submeter a ela. É um paradoxo: a liberdade é sacrificada voluntariamente em nome do amor.

    Portanto, por mais que o casamento esteja tão banalizado, desacreditado e, não raras vezes, seja motivo de chacota, ele ainda é, para os que têm a felicidade de experimentá-lo como um milagre de Deus, uma experiência de amor, profundo amor. Primeiramente de Deus, mas também daqueles que se amam.

sexta-feira, 20 de dezembro de 2024

HISTÓRIAS DO NATAL: ENQUANTO ESPERAMOS NO SENHOR

HISTÓRIAS DO NATAL: ENQUANTO ESPERAMOS NO SENHOR

"Havia em Jerusalém um homem cujo nome era Simeão; e este homem era justo e temente a Deus, esperando a consolação de Israel; e o Espírito Santo estava sobre ele. E fora-lhe revelado, pelo Espírito Santo, que ele não morreria antes de ter visto o Cristo do Senhor. E pelo Espírito foi ao templo e, quando os pais trouxeram o menino Jesus, para com ele procederem segundo o uso da lei, ele, então, o tomou em seus braços, louvou a Deus, e disse:

Agora, Senhor, despedes em paz o teu servo, segundo a tua palavra; Pois já os meus olhos viram a tua salvação, a qual tu preparaste perante a face de todos os povos; Luz para iluminar as nações, E para glória de teu povo Israel. E José, e sua mãe, se maravilharam das coisas que dele se diziam.

E Simeão os abençoou, e disse a Maria, sua mãe: Eis que este é posto para queda e elevação de muitos em Israel, e para sinal que é contraditado (E uma espada traspassará também a tua própria alma); para que se manifestem os pensamentos de muitos corações."

– Lucas 2:25-35

É bastante comum, para nós, cristãos contemporâneos, ficarmos sensibilizados com histórias de testemunhos dramáticos que ouvimos. Eu, como cristão batista, sempre ouvi com muita atenção e admiração as histórias dos missionários da Junta de Missões Mundiais (JMM), quando falam dos trabalhos em países mais empobrecidos e de como Deus curou, enviou provisões e realizou conversões fantásticas. Isso, além de mobilizar de alguma forma a minha fé, sempre despertava em mim um desejo profundo de viver experiências como essas. Era como se eu ouvisse sobre "viver o extraordinário de Deus", e eu creio, sempre acreditei e desejei viver isso.

Porém, como pastor, de certa forma acostumado a conversar com irmãs e irmãos de fé, falo com alguma segurança que a maior parte das nossas vidas com Deus não gira em torno de profundas experiências do extraordinário. A realidade da vida cristã, em sua maior parte, acontece no ordinário da vida mesmo. Veja, não que eu não creia ou não deseje ver e experimentar essas coisas. Há em mim sempre uma enorme expectativa de viver e depois contar, com muita alegria, algo semelhante. Mas tenho aprendido que a caminhada de fé acontece no chão da realidade.

Gosto de lembrar do capítulo 11 do livro de Hebreus, que tradicionalmente é conhecido como "A galeria dos heróis da fé". Ali há o equilíbrio perfeito do que acontece em nossas vidas. Existem testemunhos de coisas grandiosas que homens e mulheres de Deus viveram, mas há também histórias de derrotas, perdas e dor. Contudo, até mesmo essas histórias são histórias de fé, de heróis da fé, histórias de pessoas que viviam pela fé.

TER FÉ É TER PACIÊNCIA E ESPERANÇA

Um dos salmos mais conhecidos da tradição cristã é o Salmo 40, que começa dizendo: "Esperei com paciência no Senhor e Ele se inclinou para mim e ouviu o meu clamor" (v.1). Aliás, daqui tiramos uma definição sobre a esperança do Evangelho: esperança é aguardar com confiança sob a promessa de Deus.

A história de Simeão é uma história de paciência e esperança. Não temos muitas informações sobre ele. Ele não aparece em nenhum outro momento nas narrativas bíblicas, apenas aqui. Mas o que se fala sobre ele é bastante inspirador: era um homem justo, temente a Deus e que esperava no Senhor (v. 25).

Como todo judeu, Simeão vivia a expectativa messiânica. Ele aguardava o "consolador de Israel". Mas, enquanto esperava, Simeão vivia pela fé. O verso 1 do capítulo 11 de Hebreus diz (cito aqui a versão NVT): "A fé mostra a realidade daquilo que esperamos; ela nos dá convicção de coisas que não vemos..." Ou seja, experimentamos em nossa realidade as coisas que esperamos, que ainda não vieram, e temos convicção de coisas que não estamos vendo. É exatamente isso que Simeão faz. Por ter convicção, ele vivia a realidade do Reino de Deus. Enquanto esperava a intervenção de Deus, ele vivia a justiça do Reino e em temor ao Senhor.

Mas, para muitos, a vida de Simeão pode parecer sem graça. Sem grandes testemunhos a contar, sem experiências extraordinárias acumuladas, somente uma vida comum. A questão é que somos viciados em drama. Quanto mais dramática a história, mais surpreendente nos parece. Por conta disso, pensamos que, quanto mais dramática a história e a vida são, mais fé a pessoa precisa ter. No entanto, Jesus nos disse que são bem-aventurados os que não viram, mas, mesmo assim, creram. Creram nas coisas que não se viam e em coisas que esperavam.

Não precisamos de uma história dramática para viver o cuidado, a provisão e os milagres de Deus. Existem milagres maravilhosos que vamos viver, que ninguém vai saber, que não haverá uma narrativa surpreendente, que acontecerão nos bastidores. Às vezes, só você e Deus vão saber. Às vezes, será algo visto apenas por você e seu cônjuge. Sem tocar trombeta, sem que a mão esquerda saiba o que fez a direita. Mas, mesmo assim, será um milagre maravilhoso de Deus.

Quando Simeão tomou Jesus no colo, muitos dos que estavam ali não sabiam o que estava acontecendo, mas Simeão sabia. Naquele momento, aquele menino era um milagre que Simeão estava testemunhando. Algo entre ele e Deus. Uma promessa se cumprindo. Algo extraordinário acontecendo, mas ninguém além de Maria, José e a profetisa Ana estava vendo.

Deus fez Simeão experimentar algo profundo, grandioso e eterno. E o que ele diz atesta isso: "Os meus olhos viram a tua salvação, a qual tu preparaste perante a face de todos os povos; Luz para iluminar as nações, e para glória de teu povo Israel" (v. 30). A salvação do Senhor vem para todos os que pacientemente guardam a esperança. Continue firme, fiel ao Senhor, porque certamente seus olhos também verão a grande provisão do Senhor.

Pr. Lázaro Sodré

 


quinta-feira, 12 de dezembro de 2024

SINAIS DO REINO: GENEROSIDADE

SINAIS DO REINO: GENEROSIDADE

O Reino de Deus não vem de modo visível, disse Jesus. Mas certamente será percebido. Embora o Reino de Deus não seja aparente, palpável ou institucionalizado, ele se manifesta pela luz que emite, pelas novas realidades que cria e pela prática de vida dos seus cidadãos. Foi justamente a evidência dessas manifestações que Jesus apontou quando questionado pelos discípulos de João Batista:

“Voltem e anunciem a João o que vocês estão ouvindo e vendo: os cegos veem, os mancos andam, os leprosos são purificados, os surdos ouvem, os mortos são ressuscitados, e as boas novas são pregadas aos pobres.” 

(Mateus 11.4-5).

Essas palavras nos ajudam a entender o poder de capilaridade do Reino. Capilaridade é um conceito da física que descreve a capacidade de substâncias líquidas fluírem através de corpos porosos, mesmo que muito finos e sob forças de oposição. Assim também é o Reino de Deus: ele se infiltra nas estruturas da sociedade, fluindo em meio às resistências e trazendo transformação.

Na parábola, Jesus usou outra analogia para explicar essa dinâmica: o fermento. Ele disse:

“O Reino dos céus é como o fermento que uma mulher tomou e misturou com uma grande quantidade de farinha, e toda a massa ficou fermentada" 

(Mateus 13.33).

Dessa forma, o Reino de Deus pode se manifestar na Igreja, nos cultos e na religião, mas também nas casas, nas repartições públicas, nas empresas, nas ruas, em todos os lugares. Ele penetra e transforma as estruturas da sociedade, trazendo luz e mudança.

O Sinal da Generosidade

Mas quais são as evidências da presença do Reino? Quais são os sinais que podemos perceber? Entre as características que sinalizam o Reino, destaca-se a generosidade.

Generosidade é a escolha voluntária e intencional de ter menos para que o outro — o nosso próximo e todos aqueles de quem podemos nos fazer próximos — possa ter também. Muitas vezes pensamos que generosidade está ligada apenas a questões materiais, mas ela vai muito além disso. Generosidade é dar do que tenho e dar de mim mesmo. É compartilhar não só os recursos, mas também o tempo, a atenção e a disposição para ouvir e servir.

Precisamos praticar a generosidade do pão e a generosidade do tempo de qualidade. É saber tratar como prioridade aquilo que afirmamos ser o mais importante. Isso significa dedicar nossa vida às necessidades reais do próximo, indo além do que é superficial.

Orando por um Coração Generoso

Por isso, em nossas orações, devemos pedir a Deus sensibilidade para perceber as necessidades ao nosso redor e um coração disposto a servir. Que possamos ir além do que temos a oferecer, preocupando-nos verdadeiramente com o que o outro precisa.

Que o Senhor nos ajude a dar sinais do Reino de Deus onde quer que estejamos, para que as pessoas vejam nossas obras e glorifiquem ao Senhor do Reino e das nossas vidas.

Pr. Lázaro Sodré

domingo, 8 de dezembro de 2024

A MARGINALIDADE DO NATAL

 A MARGINALIDADE DO NATAL


"Depois que Jesus nasceu em Belém da Judéia, nos dias do rei Herodes, magos vindos do Oriente chegaram a Jerusalém e perguntaram: ‘Onde está o recém-nascido rei dos judeus? Vimos a sua estrela no Oriente e viemos adorá-lo’. Quando o rei Herodes ouviu isso, ficou perturbado, e com ele toda a Jerusalém. Tendo reunido todos os chefes dos sacerdotes do povo e os mestres da lei, perguntou-lhes onde deveria nascer o Cristo. E eles responderam: "Em Belém da Judéia; pois assim escreveu o profeta..."


- Mateus 2:1-5


    É notória nos Evangelhos a aproximação de Jesus com os marginalizados, excluídos e segregados. Suspeito que isso não é apenas fruto da sua misericórdia grandiosa, ou da sua graça insistente, ou ainda, do seu profundo amor, o que já seria tudo isso, por si só, maravilhoso. Porém, não é exagero associar essa identificação de Jesus com os excluídos ao fato de que era ele também um marginal. Todos sabem da solidariedade que há entre os que sofrem. 

    A mensagem do Natal de Jesus é, sem sombras de dúvidas, uma mensagem marginal para os marginalizados. Somente nessa breve cena que compõe a saga do advento, contém algumas informações que atestam essa marginalidade.

    A primeira é que o evento mais extraordinário de toda a história de Israel é percebido não pelos escribas, fariseus ou mestres da Lei, mas por magos-astrólogos vindos do oriente. A eles fora revelado, bem antes de qualquer um dos profetas e sacerdotes que viviam naquele período em Israel, o nascimento do Cristo. O relato daqueles esotéricos era que uma misteriosa estrela os guiou por dias, ao longo de desertos, proclamando o nascimento do Messias aguardado.

    Aqui, já de cara, há um inconveniente fato sobre o nascimento de Jesus. O Rei do Judeus, filho de Deus, o messias aguardado por toda a elite religiosa e estudiosos da Lei de Israel, faz o seu anúncio através de uma estrela, fora do templo e dos livros, para gentios. Isso, provavelmente, para nos ensinar que a mensagem do Natal, além de ser marginal, é, também, supra religiosa. Jesus de Nazaré não está sob o domínio dos religiosos, nem das suas leis e tão pouco das suas “cidades santas”.

    Não foi em Jerusalém e nem em Samaria. Não foi dentro do sacrossanto templo de Israel, e também não foi num dos aposentos do majestoso palácio de Jerusalém. Jesus nasce em Belém da Judeia, nos fundos de uma simples casa de um dos aldeões que, provavelmente, nem sabia o que estava acontecendo, além da agonia do parto de uma jovem pobre. A profecia de Miqueias não era conhecida de todo o povo. Somente os eruditos de Israel, que viviam na capital, bem próximos do rei, sabiam que o messias nasceria na pequenina e irrelevante Belém. 


E mesmo diante do alvoroço que essa notícia trouxe, deixando o Rei e toda a Jerusalém perturbados, os eruditos não foram à Belém, não se dispuseram a visitá-los, assisti-lo e nem em adorá-lo. Provavelmente, assim como na parábola do “Bom Samaritano”, passaram de largo e seguiram para as suas atividades importantes no importante templo. Ao invés deles, pastores, magos, anjos e bichos deram as boas vindas ao Rei do Universo. 

    Dessa vez, o que podemos perceber é a acessibilidade do Santo Rei que acabara de nascer. Enquanto no palácio da cidade santa, para ter acesso à presença do rei Herodes, ou no templo, para levar as suas orações, havia, para o povo, um sem fim de protocolos e critérios, está ali Jesus, o Rei dos Reis, sem guardas, sem “protocolos de segurança”, sem rituais de purificações e nem muros de separação, recebendo presente de estranhos, sendo acolhido por gente simples e diante dos animais da roça. Simples, disponível, poderoso e marginal.

    Não podemos deixar de perceber que a mensagem poderosa de Jesus está para além dos seus sermões, ensinos e exortações, pois é evidente que o próprio Jesus é a mais poderosa mensagem do Evangelho de Deus. A Boa Nova veio quebrar a lógica da religião, do domínio e dos poderosos. Deus fez de Jesus, desde antes do seu nascimento, um profeta transgressor, que estava condenado a ser um marginal da religião de Israel, dos seus sacerdotes e dos governantes. Mas o povo pôde receber o Rei dos Judeus, o Santo de Israel, que se fez carne, se fez povo e marginal para, junto aos marginalizados, anunciar a salvação de Deus.

    Precisamos prestar atenção nessa mensagem. Não foi à toa e sem propósito tudo isso. Deus queria nos ensinar que bem aventurados são os pobres, os que choram e os perseguidos porque, ainda que nos reinos e nas religiões dos homens não tenham espaços para eles, no Reino Anunciado por Jesus, a lógica é invertida: Os últimos serão os primeiros, os menores serão os maiores e os marginalizados, excluídos segregados são bem vindos e estarão com Jesus no centro, numa mesa farta de pão, amor, perdão e graça.


- Pr Lázaro Sodré